As grandes queimadas que têm devastado áreas florestais a oeste de Bordeaux reduziram a cinza e o carvão a vastas áreas de habitat nativo e estão a provocar um rasto de perdas na fauna local. Autoridades e especialistas descrevem uma situação em que animais de diferentes grupos — desde mamíferos pequenos a répteis e anfíbios — enfrentam condições que tornam improvável a recuperação imediata dos ecossistemas atingidos.
Dimensão dos danos e espécies afetadas
As chamas consumiram dezenas de milhares de hectares na região da Gironda neste verão europeu. Para além de habitações e infraestrutura agrícola destruídas, a ministra francesa da Ecologia, Monique Barbut, afirmou que a fauna sofreu “perdas extremamente significativas”.
“Está claro que os números serão catastróficos”, afirmou Barbut.
Peritos locais apontam que, em áreas fortemente atingidas como Le Porge, a intensidade do fogo e do calor libertado terá tornado quase impossível a sobrevivência de muitos animais. O engenheiro do Escritório Nacional de Florestas, Laurent Tillon, referiu que a potência e a energia liberadas foram demasiado elevadas para que grande parte da fauna resistisse.
- Répteis: o lagarto-ocelado encontra-se entre as espécies descritas como afetadas;
- Mamíferos pequenos: inclui-se o musaranho-pigmeu;
- Anfíbios: espécies ameaçadas como o sapo-de-unha-negra podem não sobreviver ao calor extremo e à fumaça;
- Insetos: mortalidade massiva observada, com consequências em cadeia para aves e outros predadores;
- Fauna aquática: cinzas e sedimentos têm poluído cursos de água, prejudicando organismos aquáticos.
Impactos ecológicos e perspetivas
O ornitólogo Grégoire Lois, do Museu Nacional de História Natural em Paris, advertiu para as repercussões alimentares resultantes da perda massiva de insetos, prevendo que a área poderá ficar completamente inóspita no ano seguinte. Especialistas salientam ainda que espécies de longa duração, como o cágado-de-carapaça-estriada, já foram fortemente afetadas por incêndios anteriores na mesma região, o que agrava a preocupação sobre a capacidade de recuperação das populações.
Para além da mortalidade imediata, os incêndios comprometem a estrutura do habitat — a vegetação nativa convertida em madeira carbonizada e cinza reduz locais de alimentação, reprodução e refúgio, tornando os ecossistemas mais vulneráveis a novas vagas de calor e a invasões por espécies oportunistas.
| Categoria | Exemplo | Consequência observada |
|---|---|---|
| Répteis | Lagarto-ocelado | Perdas locais elevadas; refúgios destruídos |
| Mamíferos pequenos | Musaranho-pigmeu | Sobrevivência improvável em zonas de maior intensidade |
| Anfíbios | Sapo-de-unha-negra | Suscetível a calor extremo, fumaça e perda de habitat |
| Fauna aquática | Espécies diversas | Poluição por cinzas e declínio local |
Os efeitos imediatos das chamas estendem-se ao funcionamento dos ecossistemas: a redução de insetos compromete cadeias alimentares; a contaminação de cursos de água afeta organismos aquáticos; e a perda de vegetação altera microclimas e a capacidade do solo reter água. As autoridades temem que uma onda de calor prevista nos próximos dias possa agravar as chamas.
O cenário observado na Gironda insere-se num conjunto de eventos extremos que têm colocado sob pressão a gestão dos territórios florestais na Europa, sublinhando a necessidade de estratégias de prevenção, de monitorização das populações selvagens e de planos de recuperação de habitats afetados. A ausência, para já, de um balanço oficial completo dificulta a quantificação exacta dos impactos, mas as declarações das equipas no terreno apontam para danos de larga escala e consequências de longo prazo para a biodiversidade local.
Rita Machado
Redação de Ambiente, Propagandista Social