Prevalência elevada e silêncio social
Um inchar do quotidiano tão simples como um espirro, uma tosse ou uma gargalhada pode traduzir-se, para muitas mulheres, numa perda involuntária de urina. Segundo um estudo nacional realizado pela Spirituc – Investigação Aplicada para a marca Ausonia Discreet, 61% das mulheres portuguesas com mais de 50 anos já experienciaram episódios de incontinência urinária. Apesar de comum, a condição permanece largamente subdiagnosticada e envolta em estigma.
Os dados recolhidos junto de 1.200 mulheres residentes em Portugal mostram que a prevalência cresce com a idade: entre os 50 e 54 anos a percentagem é de 57,8%, sobe para 59,4% nas idades entre 55 e 64 anos e atinge 64,4% nas mulheres com 65 anos ou mais. Para muitas, as perdas não são episódicas: 39% relatam ocorrências pelo menos uma vez por semana e 18% referem episódios diários.
Como e quando ocorrem as perdas
O estudo identifica as situações quotidianas mais associadas às perdas urinárias: o acto de tossir ou sentir uma necessidade súbita de urinar é referido por 65% das participantes, seguindo-se os espirros (55,5%). Estes gatilhos descrevem tanto incontinência de esforço como episódios de urgência urinária, com impactos diretos na participação social e na autoestima.
- Prevalência aumentada com a idade: mais frequente a partir dos 65 anos.
- Frequência significativa: quase quatro em cada dez mulheres experienciam perdas semanais.
- Impacto na vida diária: atividades simples e relações sociais ficam condicionadas.
Consequências e necessidades identificadas
A incontinência urinária afeta a qualidade de vida, limita a mobilidade social e pode conduzir ao isolamento e à ansiedade. Apesar de se tratar de uma condição que tem opções terapêuticas — desde medidas conservadoras, como exercícios do pavimento pélvico, a intervenções médicas e cirúrgicas — muitas mulheres não procuram cuidados. O estigma e a vergonha são apontados como barreiras centrais à procura de ajuda.
| Grupo etário | Percentagem com episódios |
|---|---|
| 50–54 anos | 57,8% |
| 55–64 anos | 59,4% |
| ≥65 anos | 64,4% |
Os resultados sublinham a necessidade de campanhas de sensibilização que desfaçam mitos e normalizem a conversa clínica sobre a incontinência. A identificação precoce permite encaminhamento adequado e redução do impacto funcional e psicológico.
Para além da educação da população, os dados apontam para a importância de capacitar profissionais de saúde primários para a avaliação proactiva dos sintomas, assim como garantir acesso a fisioterapia pélvica e a tratamentos especializados quando indicados. A integração de programas de prevenção e reabilitação na rede de cuidados pode reduzir a carga social e económica associada.
Ainda que o estudo revele a dimensão do problema em Portugal, permanece um desafio transformar os números em políticas e serviços que respondam às necessidades reais das mulheres afetadas. A primeira etapa, dizem especialistas, passa por quebrar o silêncio e encarar a incontinência urinária como uma condição de saúde tratável, não como inevitabilidade da idade.