Saúde

Acesso indevido a dados de cerca de 100 mil utentes do SNS exposto dias depois do incidente

Os Serviços Partilhados do Ministério da Saúde admitiram que só tiveram conhecimento do acesso indevido a registos de utentes dois dias após o primeiro episódio, e que as consultas ilegítimas evoluíram para um padrão automatizado. O registo foi temporariamente retirado da internet e só voltou com autenticação reforçada.

Acesso indevido a dados de cerca de 100 mil utentes do SNS exposto dias depois do incidente
©Ilustração IA Carla Nunes / propagandistasocial.com

Os Serviços Partilhados do Ministério da Saúde (SPMS) confirmaram esta semana que o primeiro acesso indevido, ligado às credenciais de um médico, ocorreu a 19 de maio, mas a entidade só tomou conhecimento do problema cerca de dois dias depois. Em audição na comissão parlamentar de Saúde, o presidente dos SPMS explicou que o episódio evoluiu para consultas automatizadas que atingiram os registos de aproximadamente 100 mil utentes do Serviço Nacional de Saúde (SNS).

Segundo o testemunho prestado, o primeiro momento do incidente teve origem nas credenciais de um profissional de saúde que, de acordo com a entidade, não terá participado no acesso indevido. Numa fase posterior, as consultas passaram a ocorrer de forma automatizada, sem um padrão de comportamento que indicasse ação humana, o que dificultou a deteção imediata do problema.

Medidas adotadas e alcance dos dados

Em resposta ao incidente, os SPMS adotaram medidas de contingência que incluíram a retirada temporária do Registo de Saúde Eletrónico da internet, mantendo-o acessível apenas dentro da rede informática da saúde. Esta configuração perdurou até à implementação do duplo fator de autenticação em 1 de junho.

O presidente dos SPMS assegurou ainda que os dados acedidos eram de natureza administrativa, não tendo sido registado acesso a informações clínicas. Os sistemas geridos pelos SPMS, segundo foi afirmado na audição, são diariamente alvo de mais de 10 tentativas de ataque, com a grande maioria a ser bloqueada em fases iniciais.

“Tomámos conhecimento deste facto ao início da tarde do dia 21 de maio, na sequência de quatro pedidos de explicações por parte de utentes”, afirmou o responsável.

O registo de saúde eletrónico incorpora mecanismos que permitem notificar o utente quando os seus dados são consultados e identificar o consultante, uma funcionalidade que, segundo os responsáveis, facilita a deteção de acessos suspeitos pelos próprios utilizadores.

Implicações e pontos a vigiar

  • Confiança e segurança: a descoberta tardia dos acessos levanta questões sobre a rapidez e a eficácia dos mecanismos de monitorização.
  • Resposta e prevenção: a remoção temporária do sistema da internet e a introdução de autenticação em duas fases foram medidas imediatas, mas permanecem dúvidas sobre vetores de vulnerabilidade.
  • Impacto nos utentes: foram notificados pelo menos quatro utentes que deram a alertar para acessos incompreensíveis, desencadeando a investigação.
DataEvento
19 de maioPrimeiro acesso indevido, usando credenciais de um médico
21 de maioSPMS teve conhecimento do problema após notificações de utentes
1 de junhoImplementação do duplo fator de autenticação

A exposição de registos administrativos de um universo de cerca de 100 mil utentes coloca o foco na necessidade de fortalecer a vigilância dos sistemas de informação em saúde, melhorar a comunicação com os cidadãos e aprofundar a transparência sobre o tipo exacto de dados afectados. É igualmente crucial que as instituições clarifiquem as causas que permitiram a transição de acessos pontuais para um padrão automatizado e que demonstrem medidas sustentadas para prevenir recorrências.

À escala do SNS, este caso sublinha a tensão entre a digitalização de serviços essenciais e a exigência de salvaguardas tecnológicas robustas. As entidades responsáveis deverão agora consolidar lições, reforçar práticas de autenticação e monitorização e assegurar que os utentes sejam informados de forma clara sobre o que foi acedido e quais os riscos, sem alarmismos, mas com responsabilidade institucional.

Carla Nunes
Carla IA Jornalista de Saúde online

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