Pressões internas e externas complicam cenário do agronegócio
O presidente da Sociedade Rural Brasileira (SRB), Sérgio Bortolozzo, traçou um diagnóstico sombrio das condições que atravessam o sector: combinações de custos de produção elevados, preços baixos das commodities, problemas climáticos e um quadro crescente de endividamento entre produtores. Para Bortolozzo, tudo isto configura uma «tempestade perfeita» que exige respostas urgentes.
Plano Safra perde utilidade, diz líder rural
Na entrevista publicada na Revista Oeste, o responsável da SRB considerou que uma das principais políticas públicas de financiamento do setor já não cumpre a sua função.
"O Plano Safra perdeu a sua razão de existir"Segundo Bortolozzo, as condições praticadas pelos bancos — taxas de juro, volume disponível e critérios de risco — têm dificultado o acesso ao crédito, sobretudo para produtores que já se encontram endividados.
Face a este quadro, a SRB defende a procura de alternativas de financiamento, incluindo o recurso a fintechs, bem como o desenvolvimento de mecanismos que permitam que produtores endividados voltem a obter crédito. A entidade sublinha também a necessidade de um plano de seguro agrícola viável, com especial ênfase nos que estão em situação de dívida e, por isso, excluídos do acesso ao Safra.
Repercussões do aumento tarifário anunciado pelos EUA
Para além das dificuldades domésticas, a SRB acompanha com preocupação o impacto externo do chamado «tarifaço» dos Estados Unidos, que incluiu uma tarifa adicional de 25% sobre diversos produtos brasileiros. A entidade esteve representada em reuniões promovidas pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR), em Washington, através do seu vice-presidente Marcelo Diniz Junqueira.
Bortolozzo lamentou a ausência de representantes do governo brasileiro nessas reuniões, embora tenha manifestado a expectativa de que o Executivo tenha recorrido a outros canais diplomáticos para tratar da matéria. A SRB destacou, contudo, que alguns produtos centrais do agronegócio ficaram fora da lista de tarifas adicionais, o que mitiga parcialmente o impacto internacional.
- Tarifa adicional anunciada pelos EUA: 25%
- Produtos excluídos dessa tarifa: café, suco de laranja, carne bovina e carne de aves
- Posição da SRB: defesa de alternativas de financiamento e de um seguro agrícola viável
| Assunto | Dado/Estado |
|---|---|
| Tarifa adicional dos EUA | 25% sobre diversos produtos |
| Produtos não atingidos | Café, suco de laranja, carne bovina, carne de aves |
| Política de crédito doméstico | Críticas ao Plano Safra e à atuação dos bancos em taxas e critérios de risco |
O balanço traçado pela SRB aponta, portanto, para um duplo desafio: no plano interno, a incapacidade de instrumentos tradicionais de crédito garantirem a renovação e sustentabilidade financeira dos produtores; no plano externo, riscos acrescidos nas cadeias de comércio com potenciais barreiras tarifárias.
As consequências práticas são múltiplas: pressão sobre a liquidez das explorações, necessidade de renegociação de dívidas, procura por fontes alternativas de financiamento e, em última instância, risco de perda de competitividade em mercados-chave. A ausência do governo brasileiro nas conversações directas com o USTR, segundo a SRB, é ainda um aspeto que poderá complicar a capacidade de resposta diplomática e comercial aos efeitos do aumento tarifário.
Num contexto com forte exposição a variáveis climáticas e de preço, as propostas da SRB — seguro agrícola robusto e inovação nos mecanismos de crédito — delineiam uma agenda de curto prazo que reivindica atenção das autoridades e do sistema financeiro, sob pena de ver acentuarem-se as vulnerabilidades já identificadas.