Risco elevado de El Niño exige resposta articulada do sector da saúde
Relatórios internacionais apontam para um alto risco de que o fenómeno climático El Niño deste ano seja muito forte — a categoria mais elevada da escala — e sugerem que 2026 pode superar 2024 como o ano mais quente desde o século XIX. Para a saúde pública, essa combinação traduz‑se em desafios múltiplos: ondas de calor, incêndios, cheias, escassez de água potável e maior transmissão de doenças vetoriais.
Num cenário de temperaturas extremas e eventos hidrometeorológicos intensificados pelo aquecimento global, os serviços de saúde e a administração pública enfrentam um duplo desafio: mitigar efeitos imediatos sobre a população (ex.: desidratação, stress térmico) e evitar surtos de doenças associadas às alterações ambientais. A Organização Pan‑Americana da Saúde (Opas) já divulgou uma advertência regional que sublinha estes riscos.
Consequências sanitárias previsíveis
Os impactos mais directos referidos nos relatórios e nas análises são:
- Ondas de calor e incêndios — aumento de casos de exaustão, desidratação e agravamento de doenças cardiovasculares e respiratórias;
- Chuvas intensas e cheias — risco de deslocamentos, perdas de infraestrutura e contaminação de água potável;
- Aumento da reprodução de vetores — condições favoráveis à disseminação de dengue, zika, chikungunya e malária.
| Risco | Efeito na saúde |
|---|---|
| Ondas de calor / incêndios | Stress térmico, desidratação, agravamento de doenças cardiovasculares e respiratórias |
| Chuvas intensas / inundações | Escassez de água potável, deslocamento de populações, maior exposição a doenças |
| Ambiente húmido / temperaturas elevadas | Maior reprodução de mosquitos transmissores (dengue, zika, chikungunya, malária) |
Preparação, lacunas e lições recentes
Para responder a estes riscos são necessários investimentos e coordenação entre as diferentes áreas de governo: urbanismo, ambiente, defesa civil, bombeiros, monitorização de incêndios e, de forma central, a logística do sector da saúde. Nos países com sistemas públicos pressionados, qualquer falha de planeamento pode amplificar o impacto sobre populações vulneráveis.
O texto fonte recorda lacunas recentes na resposta a surtos de dengue: embora a Organização Mundial da Saúde tenha emitido alertas em 2023 por causa do El Niño, a resposta federal não estruturou adequadamente a rede básica de atendimento e atrasou a autorização da vacina japonesa Qdenga. Em 2024, morreram 5.873 pessoas por dengue no país — número superior à soma dos oito anos anteriores (4.992), segundo levantamento com base em dados do Datasus — um resultado que, segundo analistas, poderia ter sido parcialmente evitado com melhor planeamento.
O que deve ser feito agora
As medidas recomendadas no relatório da Opas e nas avaliações técnicas consultadas implicam ações integradas e imediatas entre União, estados e municípios: ampliação de recursos para atendimento ambulatorial, agilização de diagnósticos, reforço de estoques de vacinas e fortalecimento da vigilância entomológica. Além disso, é preciso garantir infraestruturas resilientes para água e saneamento, assim como planos de contingência para eventos extremos.
O risco de um El Niño intenso é uma chamada de atenção para que políticas públicas de saúde e de planeamento urbano incorporem de forma urgente a realidade climática atual. Sem essa preparação, aumentam as probabilidades de impactos directos à vida e à capacidade de resposta do sistema de saúde.