Adolescentes estão a ser alvo de imagens íntimas produzidas com recurso à inteligência artificial e partilhadas nas redes sociais, uma prática que várias entidades qualificam como crime e que já deu origem a condenações em tribunal. A Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV) e a Polícia Judiciária (PJ) alertam para os efeitos imediatos e duradouros sobre as vítimas, especialmente quando estas são menores.
Segundo a APAV, a maioria das pessoas afetadas são raparigas. O fenómeno tem levado famílias a optar por mudar os filhos de escola para tentar pôr termo ao assédio e ao ostracismo. A gestora operacional da Linha Internet Segura, gerida pela APAV, descreve a situação como uma fuga forçada por parte das vítimas: muitas vezes, quando existe essa possibilidade, os pais mudam os filhos de estabelecimento de ensino para escapar ao sofrimento continuado.
"Vai haver uma tendência para [a vítima] querer deixar de ir à escola, se estivermos a falar de crianças."
O impacto psicológico é amplo e persistente. A APAV reporta que, mesmo tratando‑se de imagens falsas — isto é, com o corpo criado artificialmente —, a presença do rosto da vítima torna a experiência de violação da intimidade real e constante. Entre as consequências descritas estão problemas de sono, perturbações alimentares e uma redução do rendimento escolar, assim como alterações na forma como as jovens percebem o próprio corpo e a sua sexualidade.
- Estigma contínuo: circulação permanente das imagens provoca sensação de perseguição.
- Impacto na saúde mental: ansiedade, problemas de sono e alimentação.
- Dificuldade em denunciar: vítimas enfrentam barreiras e processos demorados junto das autoridades.
A APAV e a PJ salientam ainda a dificuldade que as vítimas têm em procurar ajuda junto das autoridades: é necessário explicar episódios íntimos a estranhos e navegar num sistema que as organizações qualificam de moroso e com linguagem pesada. Essa barreira processual pode contribuir para que muitos casos não sejam formalmente comunicados, adiando ou impedindo a intervenção criminal e a proteção adequada às vítimas.
Consequências e respostas
Para além das mudanças de escola, a situação levanta questões sobre a prevenção digital, a literacia para o uso da IA entre jovens e a necessidade de protocolos claros nas escolas para a proteção de quem sofre este tipo de violência. A existência de condenações demonstra que o ordenamento penal já contempla situações em que imagens íntimas fabricadas são utilizadas para vitimização, mas as entidades de apoio reforçam a necessidade de mecanismos mais acessíveis e céleres para acompanhar as vítimas.
| Consequência | Descrição |
|---|---|
| Mudança de escola | Famílias optam por transferir a criança para escapar ao bullying e ao isolamento. |
| Sintomas psicológicos | Problemas de sono, alterações alimentares e diminuição do rendimento escolar. |
| Dificuldade em denunciar | Processos policiais percebidos como burocráticos e demorados, desincentivando queixas. |
Organizações como a APAV sublinham a necessidade de reforçar o apoio psicológico e de criar caminhos de denúncia mais acessíveis para jovens. A prevenção passa também por educação digital nas escolas e por uma resposta coordenada entre instituições de ensino, autoridades policiais e serviços de apoio às vítimas, de modo a reduzir a reprovação das vítimas e a responsabilizar os autores destas práticas.
Enquanto a legislação e os tribunais já começam a responder a casos concretos, o desafio imediato é reduzir o sofrimento diário a que as vítimas estão sujeitas e evitar que a única solução aparente seja abandonar o contexto escolar e social onde deveriam crescer e aprender.