Ondas de calor: um novo padrão que afeta a Europa
A Organização Meteorológica Mundial (OMM) informou esta terça-feira que o calor extremo está a ocorrer com maior frequência, intensidade e duração e que abrange áreas significativamente mais amplas do que no passado. A avaliação foi feita por John Kennedy, chefe de informações climáticas da agência, durante uma conferência em Genebra, onde explicou a combinação de fatores meteorológicos e climáticos que potencia as ondas de calor.
Segundo a OMM, os padrões persistentes de sistemas de alta pressão no Hemisfério Norte favorecem a retenção de ar quente, redução da cobertura de nuvens e a inibição da entrada de massas de ar mais frias. Estes bloqueios meteorológicos permitem que o calor se acumule sobre vastas regiões por períodos que podem durar dias ou semanas. A isto soma-se o facto de o planeta estar mais quente devido às emissões humanas de gases de efeito estufa, o que altera de forma clara o contexto em que estes sistemas operam.
"O calor extremo está se tornando mais frequente, mais intenso, está durando mais tempo e abrangendo áreas muito mais amplas do que no clima mais frio do passado", afirmou John Kennedy.
Kelly explicou ainda que eventos análogos no passado, como o episódio de junho de 1976, ocorreram em circunstâncias muito diferentes — num mundo mais frio e com apenas algumas áreas pontuais acima da média. Hoje, pelo contrário, a maior parte do globo apresenta temperaturas superiores à média, deixando apenas zonas isoladas com desvios negativos. Esta diferença evidencia a influência antropogénica sobre o clima atual.
Entre os factores que amplificam as temperaturas estão os mares excecionalmente quentes e os solos ressecados. Ondas de calor marítimas no Mediterrâneo e em águas a oeste da Europa estão a contribuir calor adicional às camadas atmosféricas, enquanto a falta de humidade nos solos acelera o aquecimento da superfície terrestre.
Consequências e riscos para Portugal
Para Portugal, que integra a região europeia mais rapidamente aquecida, este padrão traz riscos concretos: maior probabilidade de secas prolongadas, aumento da severidade e frequência de incêndios florestais, pressões sobre os recursos hídricos e impactos na saúde pública, sobretudo entre populações vulneráveis. A combinação entre ondas de calor terrestres e marítimas pode também afetar ecossistemas e a pesca.
- Saúde: aumento de mortes e doenças relacionadas com o calor.
- Incêndios: terrenos mais secos e temperaturas elevadas favorecem o risco de ignições destruidoras.
- Água e agricultura: secas mais duradouras põem em causa colheitas e abastecimento.
| Fator | Efeito |
|---|---|
| Sistemas de alta pressão persistentes | Retenção de ar quente e acúmulo de temperaturas por dias/ semanas |
| Mares mais quentes | Fornecem calor adicional à atmosfera sobre terra |
| Solos ressecados | Amplificam o aquecimento da superfície |
A OMM sublinha que a conjugação destes factores num planeta aquecido pela ação humana está a transformar a frequência e a gravidade das ondas de calor. As implicações exigem respostas integradas em termos de planeamento urbano, gestão de recursos hídricos, prevenção de fogos e proteção da saúde pública, bem como reforço das políticas de redução de emissões para mitigar impactos futuros.
Perante esta realidade, especialistas e autoridades nacionais e europeias terão de alinhar medidas de curto prazo para proteger populações vulneráveis e setores críticos, ao mesmo tempo que aceleram a transição para uma economia de menores emissões, capaz de reduzir a tendência de agravamento destes fenómenos.