Sociedade

Câmara da Barquinha rejeita proposta para zonas de aceleração das renováveis por falhas técnicas e de participação

A autarquia de Vila Nova da Barquinha emitiu um parecer desfavorável ao Programa Setorial das Zonas de Aceleração para as Energias Renováveis, criticando critérios pouco claros, insuficiente articulação com instrumentos de gestão territorial e fraca participação dos municípios na elaboração do documento.

Câmara da Barquinha rejeita proposta para zonas de aceleração das renováveis por falhas técnicas e de participação
©Ilustração IA Nuno Ribeiro / propagandistasocial.com

A Câmara Municipal de Vila Nova da Barquinha apresentou um parecer desfavorável à proposta do Programa Setorial das Zonas de Aceleração para as Energias Renováveis (PSZAER), no âmbito da consulta pública. Em comunicado, a autarquia liderada por Manuel Mourato (PS) considera que o texto, na sua redação atual, não garante o equilíbrio necessário entre as metas da transição energética e a preservação dos valores territoriais, ambientais, paisagísticos e patrimoniais.

Críticas centrais do parecer

A crítica fundamental da Câmara aponta para a ausência de critérios objectivos na delimitação das áreas propostas e para a falta de articulação com os instrumentos de gestão territorial já em vigor. A autarquia sublinha ainda a inexistência de uma avaliação rigorosa da capacidade de carga dos territórios e dos impactos cumulativos decorrentes da instalação das infraestruturas.

"não demonstra de forma suficientemente clara os critérios que sustentam a delimitação das áreas propostas, a sua articulação com os instrumentos de gestão territorial em vigor, nem uma avaliação rigorosa da capacidade de carga dos territórios"

No documento, a Câmara refere preocupações específicas quanto à capacidade efectiva de absorção da rede eléctrica local e à monitorização das intervenções, considerando que o PSZAER não prevê mecanismos robustos de acompanhamento dos impactes nem um modelo que assegure a participação efectiva dos municípios na implementação e gestão dessas zonas.

Participação municipal e conhecimento local

A autarquia considera que o processo de elaboração do PSZAER subvalorizou o conhecimento que as autarquias detêm sobre as especificidades dos seus territórios, não garantindo uma participação atempada e eficaz. Esse ponto é apresentado como central, porquanto limita o contributo dos municípios para um instrumento com impactos significativos no ordenamento do território.

  • Falta de critérios claros para delimitação das zonas
  • Insuficiente articulação com instrumentos de gestão territorial
  • Avaliação incompleta da capacidade de carga e dos impactos cumulativos
  • Fracos mecanismos de monitorização e governação
  • Participação municipal considerada desvalorizada

Reconhecimento da urgência da transição

Apesar das críticas, a Câmara afirma reconhecer a importância da transição energética e das metas nacionais e europeias de descarbonização, bem como a necessidade de promover produção de energia a partir de fontes renováveis, em particular solar e eólica. No entanto, sublinha que insistir unicamente na instalação de infraestruturas sem salvaguardas adequadas pode provocar danos irreversíveis ao território e à identidade local.

Elemento Preocupação apontada
Delimitação de áreas Critérios não claros
Gestão territorial Falta de articulação com instrumentos existentes
Capacidade de carga Avaliação insuficiente
Governação e monitorização Mecanismos fracos
Participação municipal Contributo limitado

O parecer da Barquinha é representativo de uma tensão crescente entre a necessidade de acelerar a implantação de renováveis e a exigência de garantir processos de planeamento mais rigorosos e inclusivos. Para além do impacto local, estas críticas colocam questões sobre a legitimidade e eficácia do modelo de implementação das Zonas de Aceleração ao nível nacional.

Se o Governo e as entidades responsáveis quiserem evitar contestação generalizada e riscos de litígio, terão de responder às preocupações relativas a critérios técnicos, avaliação de impactes e participação dos municípios. Sem essas respostas, o avanço do PSZAER poderá enfrentar resistências semelhantes noutras autarquias, comprometendo o objectivo mais amplo de cumprir metas de descarbonização com aceitação social e salvaguarda do território.

Em comunicado, a Câmara de Vila Nova da Barquinha deixa claro que, apesar de apoiar os objectivos ambientais, não aceitará documentos que ponham em risco a integridade do ordenamento local nem que excluam as autarquias de um papel decisivo na sua implementação.

Nuno Ribeiro
Nuno IA Jornalista de Sociedade online

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