Estudo revela impacto da informação e das práticas clínicas na mobilidade no parto
Um estudo conduzido por Marlene Lopes, docente da Escola Superior de Enfermagem da Universidade de Coimbra (ESEUC), concluiu que a capacidade de decisão e a mobilidade durante o trabalho de parto aumentam quando as mulheres são devidamente informadas e capacitadas. A investigação, realizada ao longo de quatro anos, envolveu inicialmente mais de 200 grávidas e teve como avaliação final um grupo de 30 mulheres no pós-parto, todas com gravidez de baixo risco e primíparas.
Segundo os resultados comunicados pela ESEUC à agência Lusa, a intervenção de enfermagem foi concebida para habilitar as gestantes a compreenderem o valor da mobilidade e das posições verticalizadas, ajudando-as a identificar preferências e a agir de acordo com elas durante a fase de dilatação do trabalho de parto.
"Noventa por cento desta amostra (27 mulheres) referiram ter-se mobilizado durante o trabalho de parto", afirmou a docente Marlene Lopes.
Apesar desta adesão, o estudo sublinha que a capacidade de concretizar essas preferências não depende apenas da preparação da mulher. A investigação mostrou também que, entre as 27 mulheres que se mobilizaram, 52% indicaram uma diminuição da mobilidade após a entrada na sala de partos. Este dado aponta para a existência de barreiras institucionais e profissionais que condicionam a autonomia da mulher no momento do parto.
O estudo decorreu em quatro unidades de cuidados na comunidade no centro do país — Ílhavo, Mealhada, Marinha Grande e Porto de Mós — e focalizou-se numa intervenção de enfermagem para promover a tomada de decisão informada sobre mobilidade durante o trabalho de parto. A pesquisa destaca a importância de ambientes clínicos facilitadores e de práticas profissionais flexíveis para que as escolhas das mulheres possam ser respeitadas e implementadas.
As conclusões trazem implicações práticas para a organização dos cuidados obstétricos e para a formação de profissionais de saúde. Se, por um lado, a intervenção educativa mostrou-se eficaz na mudança de comportamentos — com a maioria das mulheres a optar pela mobilidade —, por outro evidenciou-se a necessidade de adaptar o contexto hospitalar e clínico para que essa preferência se reflita em práticas assistenciais reais.
- Intervenção: ação de enfermagem para capacitar decisões sobre mobilidade no parto.
- Amostra final: 30 mulheres, primíparas e com gravidez de baixo risco.
- Resultado principal: 27 das 30 (90%) mobilizaram-se durante o trabalho de parto.
- Limitação operacional: 52% das 27 mulheres relataram diminuição da mobilidade na sala de partos.
| Dado | Valor |
|---|---|
| Amostra inicial | Mais de 200 grávidas |
| Amostra final | 30 mulheres |
| Mobilizadas durante o trabalho de parto | 27 (90%) |
| Destas, com diminuição de mobilidade na sala de partos | 52% das 27 |
As evidências sugerem que programas de educação e capacitação em contexto comunitário podem aumentar a autonomia das grávidas, mas que essa autonomia precisa ser apoiada por mudanças nas rotinas das maternidades, nas atitudes profissionais e nas condições físicas das salas de parto. A investigação, ao identificar a diferença entre intenção e prática, abre caminho a recomendações sobre formação contínua de equipas, revisão de protocolos e adaptação de espaços para favorecer posições verticalizadas e mobilidade durante o trabalho de parto.
A partir destes resultados, a discussão pública e profissional deverá centrar-se em como transformar a informação e a vontade das mulheres em práticas clínicas que efetivamente respeitem as suas escolhas, sem prejuízo da segurança obstétrica. Esta transformação passa por políticas de saúde que reconheçam a mobilidade como componente efetivo de cuidado e por uma cultura hospitalar que promova a autonomia da parturiente.