O Colégio Oficial de Médicos de Ceuta (COMCE) pediu ao Ministério da Saúde espanhol uma intervenção imediata para fazer face ao que descreve como uma "catástrofe assistencial" resultante da recente crise migratória na cidade autónoma. Numa carta assinada pelo presidente do organismo, Enrique Roviralta, os médicos consideram que as medidas atualmente em vigor não são suficientes para responder a uma emergência desta escala e solicitam a deslocação da ministra Mónica García para avaliação no terreno.
Pedido de reforço e medidas extraordinárias
O COMCE defende que o atendimento não pode permanecer centrado apenas no Hospital Universitário de Ceuta nem nos recursos ordinários da área de saúde. Os médicos reclamam a criação de dispositivos sanitários extraordinários que permitam garantir cuidados contínuos, preventivos e adequados para as pessoas deslocadas e para a população local, bem como o reforço dos meios humanos e materiais.
- Solicitação direta: deslocação ministerial para avaliação in loco.
- Criação de estruturas: dispositivos médicos temporários no terreno.
- Proteção mútua: medidas que salvaguardem tanto os deslocados como os residentes de Ceuta.
"O atendimento não pode recair exclusivamente sobre o Hospital Universitário de Ceuta e os recursos ordinários da área de saúde, é imprescindível criar dispositivos sanitários extraordinários 'no terreno'"
A carta sublinha também que os profissionais de saúde têm mantido um compromisso exemplar perante a crise, mas que agora é obrigação das instituições responder com igual responsabilidade, disponibilizando meios suplementares.
Vítimas recuperadas e intervenção médico-forense
Paralelamente às preocupações assistenciais, o Instituto de Medicina Legal (IML) de Ceuta informou que procedeu à autópsia de 82 pessoas recuperadas no mar em contexto desta crise migratória, tendo realizado duas autópsias adicionais recentemente. Do total, foram identificadas até ao momento 6 vítimas. Com a conclusão desses exames, o protocolo médico‑forense e de Polícia Científica implementado desde a semana anterior foi desativado.
| Indicador | Valor |
|---|---|
| Corpos autopsiados pelo IML | 82 |
| Vítimas já identificadas | 6 |
| Pessoas que entraram em Ceuta (numa janela de 24h) | 72 000 |
| Regressaram a Marrocos | 70 000 |
O levantamento do primeiro corpo referido neste contexto ocorreu a 29 de Julho e o segundo a 30 de Julho, pouco antes da entrada massiva de migrantes, reportada no mesmo dia pela manhã.
Consequências para a saúde pública e próximos passos
A acumulação rápida de pessoas na cidade autónoma cria riscos imediatos para a organização dos cuidados de saúde: pressão sobre urgências, necessidade de triagem e cuidados continuados, risco aumentado de surtos de doenças transmissíveis em contextos de alojamento temporário e desgaste dos profissionais. O pedido do COMCE implica não só reforço material e logístico como também coordenação interinstitucional para assegurar respostas proporcionais à dimensão do fluxo migratório.
Do ponto de vista prático, a deslocação de uma equipa ministerial permitiria avaliar prioridades como a instalação de unidades de triagem, a mobilização de profissionais de saúde suplementares, a disponibilidade de vacinas e medicamentos essenciais, e a articulação com autoridades forenses e de imigração. As autoridades centrais terão de ponderar igualmente os aspetos humanitários e os direitos das pessoas deslocadas, equilibrando-os com a proteção da saúde da população residente.
Enquanto decorrem avaliações e medidas emergentes, o apelo dos profissionais de Ceuta deixa claro que a resiliência local tem limites e que a resposta exigida pela situação ultrapassa aquilo que os recursos habituais conseguem suportar.