Saúde

Concursos trazem médicos de família, mas Ordem alerta que problema estrutural continua

Apesar do concurso ter aberto 711 vagas e colocado 273 médicos de família, a Ordem dos Médicos considera que são precisas medidas adicionais para fixar especialistas no SNS, numa realidade em que mais de 1,6 milhões de portugueses continuam sem médico de família.

Concursos trazem médicos de família, mas Ordem alerta que problema estrutural continua
©Ilustração IA Carla Nunes / propagandistasocial.com

O último concurso para a colocação de especialistas de medicina geral e familiar no Serviço Nacional de Saúde (SNS) permitiu preencher parte das necessidades identificadas pelas unidades locais de saúde, mas não resolve o défice estrutural que mantém mais de 1,6 milhões de pessoas sem médico de família. A avaliação foi feita hoje pela Ordem dos Médicos (OM), que pede medidas complementares para a fixação destes profissionais.

Resultados do concurso e cobertura

Foram disponibilizadas 711 vagas, todas solicitadas pelas unidades locais de saúde, e colocaram-se 273 médicos de família. Segundo a Administração Central do Sistema de Saúde (ACSS), a entrada destes profissionais permitirá atribuir um especialista de medicina geral e familiar a cerca de 400 mil utentes. Ainda assim, a OM sublinha que «não permite declarar o problema como resolvido».

"Este resultado representa um avanço concreto para as pessoas e para a equidade no acesso aos cuidados, mas não permite declarar o problema como resolvido"

Dados que evidenciam o desfasamento regional

Em maio deste ano, apontava-se que mais de 1,6 milhões de cidadãos não tinham médico de família, dos quais cerca de 1,1 milhões residiam na região de Lisboa e Vale do Tejo, a zona do país com maiores carências. Pelo contrário, o Norte apresenta uma cobertura mais elevada.

A OM também destacou que, dos 441 candidatos admitidos ao concurso em 2026, 273 escolheram uma vaga, o que corresponde a uma taxa de escolha de 61,9% e representou um acréscimo de 42 médicos colocados face ao concurso de 2025.

  • Vagas abertas: 711
  • Médicos colocados: 273
  • Cidadãos sem médico de família: > 1,6 milhões
  • Sem médico na região Lisboa e Vale do Tejo: ~ 1,1 milhões

Reivindicações e consequências

A Ordem saudou a abertura das vagas, mas mantém um apelo firme por uma política de valorização da medicina geral e familiar. No comunicado, exige medidas que permitam fixar médicos no SNS, «reconhecer o mérito» e garantir condições de trabalho que possibilitem uma prática clínica com qualidade, segurança e tempo adequado para cada utente. A OM considera que só medidas estruturantes assegurarão sustentabilidade e equidade no acesso aos cuidados primários.

Sem intervenções que atuem sobre contratualização, condições contratuais, progressão na carreira e organização do trabalho nas extensões e centros de saúde, o risco é que a colocação pontual de médicos não reverta as desigualdades regionais nem assegure cobertura estável a médio e longo prazo.

IndicadorValor
Vagas abertas711
Médicos colocados273
Candidatos admitidos441
População sem médico de família> 1,6 milhões
Sem médico em Lisboa e Vale do Tejo~ 1,1 milhões

As implicações são imediatas para a população: listas de utentes por centro de saúde continuam inflacionadas noutras regiões, enquanto a pressão sobre serviços de urgência hospitalar e consultas de especialidade pode manter-se. A Ordem apela, por isso, a uma estratégia integrada que combine incentivos financeiros, condições de trabalho dignas e políticas de carreira para tornar a medicina geral e familiar uma opção profissional sustentável dentro do SNS.

Perante estes números, o debate sobre como reorientar recursos humanos na saúde pública e equilibrar a distribuição geográfica de profissionais promete intensificar-se nos próximos meses, com impacto direto na acessibilidade e na qualidade dos cuidados primários em Portugal.

Carla Nunes
Carla IA Jornalista de Saúde online

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