Na sequência da Semana Europeia da Consciencialização para o Álcool, um especialista do Hospital Curry Cabral sublinha o papel do álcool como um dos maiores fatores de risco para a saúde pública global e para o sistema hepático em particular. Segundo dados citados da Organização Mundial da Saúde, o consumo excessivo de bebidas alcoólicas é responsável por aproximadamente 2,6 milhões de mortes por ano, associadas a doença do fígado, doença cardiovascular, cancro, bem como a consequências indirectas como acidentes e violência.
Contexto nacional e mudança de padrões
Em Portugal, o consumo de álcool está enraizado em práticas sociais e culturais, com destaque para a produção vitivinícola que tem valor económico e simbólico. Contudo, os especialistas alertam para uma mudança preocupante nos padrões de ingestão: há um aumento do consumo entre os jovens e entre as mulheres, assim como um crescimento de formas de consumo mais intensas, designadamente o denominado "binge drinking" — ingestão de grandes quantidades em curtos períodos.
O fígado: vítima direta e progressiva
O fígado é o órgão mais afectado pelo álcool. É responsável pela eliminação desta substância e, nesse processo, formam-se compostos tóxicos que provocam lesão celular. A progressão das lesões pode ser gradual e, em muitos casos, assintomática nas fases iniciais, o que aumenta o risco de evolução para danos irreversíveis.
- Esteatose hepática (fígado gordo): acumulação de gordura nas células hepáticas, muitas vezes sem sintomas.
- Hepatite alcoólica: inflamação aguda que pode provocar fadiga, dor abdominal e icterícia.
- Cirrose: substituição progressiva do tecido hepático por cicatriz, com complicações graves, incluindo hemorragias, infeções e cancro do fígado.
Consequências para a saúde pública e prevenção
A ausência de sinais nas fases iniciais torna a prevenção e a identificação precoce fundamentais. A evolução de alterações metabólicas a doenças estruturais do fígado evidencia a necessidade de políticas de saúde pública que combinem educação, rastreio e medidas para reduzir o acesso e o consumo nocivo, sobretudo entre grupos em crescimento de risco.
| Estágio | Característica principal |
|---|---|
| Fígado gordo | Acumulação de gordura nas células, geralmente sem sintomas |
| Hepatite alcoólica | Inflamação aguda com fadiga, dor abdominal e icterícia |
| Cirrose | Destruição do tecido hepático e substituição por cicatriz, com risco de complicações |
Os dados mundiais e a experiência clínica lembram que, embora as tradições e a economia locais influenciem os padrões de consumo, são necessárias abordagens que conciliem respeito cultural com medidas de redução de risco. A vigilância epidemiológica, campanhas de consciencialização e estratégias dirigidas a populações vulneráveis são componentes essenciais para mitigar o impacto do álcool sobre a saúde do fígado e sobre a sociedade em geral.