Saúde mental no trabalho passa a ter peso directo nos resultados
Um inquérito junto de responsáveis de empresas coloca a saúde mental e o esgotamento das equipas no centro das preocupações de desempenho empresarial. A pesquisa Panorama Liderança 2026, realizada pela Amcham Brasil em parceria com a organização Humanizadas, com respostas de 629 executivos de médias e grandes empresas, aponta que o esgotamento da equipa foi citado por 17% dos entrevistados como um dos factores que mais prejudicaram o desempenho das empresas em 2025.
Esse valor supera outras causas clássicas de perda de competitividade, como modelo de negócio desatualizado (13%) e produtos ou serviços obsoletos (9%). A interpretação dos autores do estudo é clara: a dimensão emocional e a capacidade de resistência das equipas passaram a ser percebidas por uma parcela significativa das lideranças como um risco operacional com impacto directo nos resultados.
Discurso e prática: um desfasamento preocupante
O relatório também identifica um descompasso entre as prioridades declaradas e as iniciativas concretas. Quando questionadas sobre as prioridades para 2026 no pilar "Saúde & Bem‑Estar", apenas 18,2% das empresas indicaram a promoção de saúde e bem‑estar como prioridade, e 16,2% referiram o equilíbrio entre vida profissional e pessoal. Em contraste, 29,5% apontaram o alinhamento de propósito entre as prioridades.
"pauta de RH"
O estudo alerta para um ponto cego: a retórica sobre propósito e cuidados com as pessoas nem sempre se traduz em medidas robustas que previnam o esgotamento, o que pode afectar retenção, engagement e performance no médio prazo.
- 17% — executivos que identificaram esgotamento como fator de prejuízo em 2025.
- 13% — citam modelo de negócio desatualizado como barreira.
- 9% — apontam produtos ou serviços obsoletos.
- 18,2% — priorizam promoção de saúde e bem‑estar para 2026.
- 16,2% — priorizam equilíbrio vida profissional/pessoal.
| Factor | Percentagem de respostas |
|---|---|
| Esgotamento da equipa | 17% |
| Modelo de negócio desatualizado | 13% |
| Produtos/serviços obsoletos | 9% |
As conclusões implicam várias consequências práticas: se a saúde mental é hoje uma variável de risco operacional, as empresas e os decisores públicos enfrentam um desafio de reorientar políticas internas, formação de liderança e investimentos — não apenas como iniciativas de bem‑estar, mas como medidas estratégicas de preservação de produtividade e continuidade do negócio.
Do lado das organizações, isso coloca questões sobre quadros de monitorização de risco psicossocial, modelos de trabalho, gestão de carga e recursos humanos; do lado das políticas públicas, abre espaço para debates sobre regulação, incentivos à prevenção e práticas de saúde ocupacional mais integradas. O resultado final do estudo aponta para a necessidade de traduzir o discurso sobre propósito e cuidado em intervenções mensuráveis e sustentadas.
Sem medidas concretas e alinhadas com a realidade do local de trabalho, o aumento da percepção do esgotamento como factor de prejuízo pode traduzir‑se em custos reais para empresas e para a economia, numa altura em que a competitividade depende cada vez mais da capacidade de manter equipas saudáveis e resilientes.