Em novo livro e entrevista a um órgão de comunicação, Nísia Trindade — que chefiou a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e foi ministra da Saúde durante a emergência da Covid-19 — sublinha que a ocorrência de uma nova pandemia deixou de ser mera hipótese e colocou no centro do debate a necessidade de um esforço contínuo de prevenção, preparação e resposta por parte dos Estados.
Recordar a Covid-19 para não repetir erros
De acordo com a ex-governante, o tempo transcorrido desde o início da pandemia de Covid-19 não deve levar ao esquecimento das lições aprendidas. Apesar de avanços em várias frentes — desde investigação até vacinas —, o balanço apresentado por Nísia é de que esses progressos ainda não chegam para garantir uma proteção adequada frente a futuras ameaças sanitárias. Ela aponta para lacunas organizacionais e políticas que precisam ser corrigidas para reduzir riscos e desigualdades.
Fatores que aumentam o risco de surtos
Nísia chama a atenção para a interação entre determinantes socioambientais e as emergências sanitárias. Surtos recentes, como os de mpox, Ebola e hantavírus, são lembrados como sinais de que não é prudente baixar a guarda. Além disso, destaca o impacto do negacionismo científico e a necessidade de políticas integradas que articulem saúde pública com ações sociais para combater desigualdades ampliadas pela pandemia.
“Fala-se, com muita frequência, que ocorrerá uma nova pandemia, a questão é quando.”
Implicações para políticas públicas
No diagnóstico traçado pela ex-ministra, a preparação passa por planos nacionais e internacionais mais robustos, investimento em capacidade de vigilância, estratégias de comunicação eficazes e apoio a instituições de investigação. A integração entre políticas de saúde e medidas sociais é apresentada como condição para reduzir vulnerabilidades e garantir respostas mais justas.
- Manter memória institucional sobre a Covid-19 para informar decisões futuras.
- Reforçar sistemas de vigilância e investigação em saúde pública.
- Combater o negacionismo e fortalecer a literacia em saúde.
- Articular políticas sociais com estratégias de saúde para mitigar desigualdades.
Exemplos recentes de surtos mencionados
| Evento | Mencionado como sinal de alerta |
|---|---|
| Mpox | Surto citado como exemplo de risco recorrente |
| Ebola | Mencionado entre as ameaças que exigem vigilância |
| Hantavírus | Apoia a tese de ameaça contínua |
A publicação do livro, intitulada por Nísia como parte de um esforço para preservar e difundir aprendizagens, surge numa altura em que a agenda sobre preparação para pandemias volta a ganhar relevo. Para decisores e responsáveis pela saúde pública, as palavras da ex-ministra reforçam a necessidade de traduzir memórias e evidências em políticas permanentes e financiadas, não em respostas episódicas condicionadas por emergências imediatas.
O alerta lançado sublinha também que a preparação é uma responsabilidade coletiva: envolve instituições científicas, gestores públicos, profissionais de saúde e sociedade civil. A aposta em sistemas resilientes e numa comunicação pública credível aparece, assim, como peça-chave para reduzir o impacto de futuras crises sanitárias.