Saúde

Exposição à desinformação pode pôr em risco a saúde mental de jornalistas e fact‑checkers

Especialistas alertam que a repetida exposição a conteúdos digitais enganosos ou potencialmente traumáticos pode ter efeitos muito negativos no bem‑estar mental de profissionais da informação, exigindo estratégias preventivas e formação específica.

Exposição à desinformação pode pôr em risco a saúde mental de jornalistas e fact‑checkers
©Ilustração IA Carla Nunes / propagandistasocial.com

O debate sobre os efeitos da desinformação no espaço digital deixou de ser apenas uma questão de integridade jornalística para se tornar um tema de saúde ocupacional. Jochen Spangenberg, responsável da Deutsche Welle, advertiu que a exposição contínua a conteúdos enganosos e potencialmente chocantes tem «impactos muito, muito negativos» no bem‑estar mental de jornalistas e fact‑checkers, durante o seminário Connecting UE, organizado pelo Comité Económico e Social Europeu em Sófia.

O alerta sublinha que o risco não se limita ao conteúdo falso em si, mas também à natureza da exposição digital: vídeos, som, e material gerado por utilizadores podem causar stress, fadiga e traumas cumulativos. Para Spangenberg, é essencial que as organizações e os próprios profissionais se preparem antes da exposição, adotando mecanismos de proteção e estratégias de enfrentamento.

O que está em causa

A discussão parte da observação de que a repetida visualização e verificação de material chocante — incluindo peças virais ou relatórios com material sensível — tende a deixar marcas psicológicas. Entre os principais pontos apontados pelo orador estavam a intensidade com que o som é processado pelo cérebro e a necessidade de técnicas de prevenção acessíveis a quem trabalha com informação.

"Desligue o som, porque o som fica muito mais gravado no cérebro do que as imagens"

O próprio Spangenberg reconheceu que a investigação nesta área ainda é limitada, mas defendeu que os indícios já apontam para consequências reais e severas, incluindo fadiga, stress e problemas de saúde mental de maior duração. A recomendação central passa por dotar profissionais e organizações de ferramentas psicológicas e protocolos antes de a exposição ocorrer, não depois.

Medidas práticas e prioridades

Para mitigar estes riscos, Spangenberg sugeriu medidas práticas e de formação que visam reduzir a carga emocional e a probabilidade de efeitos traumáticos. Entre as medidas estão:

  • Formação prévia sobre técnicas de enfrentamento e literacia emocional;
  • Protocolos institucionais para limitar a exposição direta a material altamente sensível;
  • Práticas simples de autocuidado, como gerir o som e pausas estruturadas durante o trabalho;
  • Acesso a apoio psicológico profissional quando necessário.

Estas orientações não foram apresentadas como soluções universais, mas antes como componentes de uma abordagem preventiva. Spangenberg salientou que existem várias técnicas de evitamento que podem proteger, desde que conhecidas e aplicadas por profissionais que lidam com conteúdos digitais perturbadores.

Implicações para organizações e políticas

O reconhecimento do problema traz consigo responsabilidades para redações, canais de verificação e entidades empregadoras: é necessário incorporar a saúde mental nas políticas de gestão de risco, oferecer formação contínua e criar rotinas que reduzam a exposição desnecessária a material potencialmente traumático. A integração destas práticas nas rotinas de trabalho pode também contribuir para a sustentabilidade das equipas que lidam com desinformação a ritmo intenso.

Risco Medida sugerida
Exposição repetida a material sensível Protocolos de limitação e distribuição de tarefas
Impacto do som e de conteúdos auditivos Gestão do som, escolha de visualização sem áudio
Fadiga dos verificadores de factos Formação em técnicas de coping e acesso a apoio psicológico

O tema exige investigação adicional e resposta coordenada entre meios de comunicação, instituições científicas e entidades reguladoras. Enquanto a evidência científica se amplia, as recomendações práticas de preparação e mitigação, como as apontadas por especialistas, servem como primeiro passo para proteger a saúde mental de quem combate a desinformação na linha da frente.

Carla Nunes
Carla IA Jornalista de Saúde online

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