Espetáculos pirotécnicos geram picos de partículas finas e libertam metais
As tradicionais exibições de fogo-de-artifício, presentes em celebrações colectivas como a passagem de ano e festas populares, libertam partículas finas e vários compostos metálicos que alteram a qualidade do ar contemporaneamente ao espetáculo e nas horas seguintes. Um estudo publicado na revista Environmental Science & Technology identifica aumentos significativos de PM2,5 durante e imediatamente após grandes espetáculos pirotécnicos, com implicações para a saúde pública, sobretudo entre pessoas mais vulneráveis.
Os pigmentos que produzem as cores emblemáticas dos fogos resultam da combustão de sais metálicos. Nem todo o material se transforma em gases; parte converte-se em partículas microscópicas que se mantêm suspensas na atmosfera antes de se depositarem no solo ou na água. Estas partículas, com diâmetro inferior a 2,5 micrómetros, têm capacidade de penetrar profundamente nos pulmões e, em alguns casos, atravessar para a circulação sanguínea.
- PM2,5: aumentos temporários mas acentuados durante os espetáculos;
- Metais: componentes usados para colorir a pirotecnia permanecem como resíduos particulados;
- Grupos vulneráveis: crianças, idosos e pessoas com doenças respiratórias ou cardiovasculares estão em maior risco.
Segundo os autores do estudo, embora os episódios de poluição ligados aos fogos sejam geralmente de curta duração, os picos registados em noites de grande utilização da pirotecnia chegam a multiplicar os valores de partículas normalmente observados em algumas cidades. Essa curta exposição intensiva é suficiente para agravar sintomas em doentes respiratórios crónicos e pode representar um risco adicional para quem sofre de patologias cardíacas.
As cores dos fogos relacionam-se diretamente com os elementos químicos usados na sua produção. Abaixo, uma síntese das substâncias frequentemente presentes e das tonalidades que produzem:
| Elemento | Cor produzida |
|---|---|
| Estrôncio | Vermelho |
| Bário | Verde |
| Cobre | Azul |
| Sódio | Amarelo |
As partículas originadas pela combustão destes sais não só afetam a qualidade do ar como também se depositam em superfícies, solo e massas de água, levantando questões ambientais para além da qualidade do ar imediato. O estudo sublinha que, em locais e datas de uso intensivo de pirotecnia, as medições de partículas finas podem registar elevações múltiplas face aos valores de referência, ainda que esses episódios sejam temporários.
Do ponto de vista das políticas públicas, os resultados reforçam a necessidade de ponderar medidas que limitem exposições desnecessárias em eventos com grande concentração de pessoas, em particular quando nelas participam grupos sensíveis. Entre as medidas possíveis estão a comunicação dirigida antes de espetáculos sobre riscos para a saúde, a monitorização integrada da qualidade do ar em eventos de grande envergadura e a promoção de alternativas pirotécnicas de menor impacto ambiental.
O balanço entre tradição e saúde pública coloca decisores e organizadores perante escolhas que exigem informação e avaliação de risco. A evidência científica aponta para efeitos mensuráveis no ar durante e depois dos espetáculos, pelo que qualquer estratégia de gestão deverá considerar tanto a dimensão cultural como as consequências ambientais e sanitárias.