Conferência em Lisboa reforça necessidade de modelo público para IA na saúde
Autoridades de saúde nacionais e internacionais reuniram-se em Lisboa para debater a integração da inteligência artificial (IA) nos sistemas de saúde, sublinhando que a sua implementação deve ser orientada pelo setor público para mitigar desigualdades e proteger a soberania dos países.
O ministro da Saúde do Brasil considerou que, se a adopção da IA na saúde ficar nas mãos de interesses privados ou de agentes externos, isso poderá aprofundar as diferenças existentes entre populações e retirar capacidade decisória aos Estados sobre políticas sanitárias. Esta posição foi reforçada por responsáveis da Organização Mundial da Saúde (OMS) e pela governante portuguesa presente no encontro.
“não é inovação, é injustiça”
A frase cita a preocupação expressa na conferência de que uma tecnologia inacessível não cumpre a promessa de progresso: quando a IA não está disponível para todos, deixa de ser avanço para ser factor de exclusão. O diretor regional da OMS para a Europa enfatizou também a importância da partilha de conhecimento entre países para evitar a repetição de erros e acelerar soluções já testadas com sucesso noutros contextos.
A ministra da Saúde de Portugal realçou a necessidade de combater a iliteracia digital em saúde e de orientar o investimento para usos que respondam às necessidades reais dos cidadãos. Como exemplo concreto dos esforços nacionais, foi recordado o financiamento já mobilizado para a modernização digital do sector.
- Cooperação pública como forma de reduzir desigualdades;
- Partilha de conhecimento entre países para acelerar soluções seguras e eficazes;
- Investimento orientado para necessidades dos cidadãos e redução da iliteracia digital.
O encontro ocorre num momento em que Portugal candidata-se a acolher um escritório geograficamente descentralizado da OMS dedicado à IA na Saúde, uma iniciativa que pode reforçar o papel do país como plataforma para investigação e coordenação europeia nesta área emergente.
| Item | Valor / Nota |
|---|---|
| Investimento no plano de transformação digital da saúde (PRR) | mais de 400 milhões de euros |
| Posição defendida | Implementação liderada pelo setor público |
Os intervenientes alertaram para dois riscos concretos: primeiro, que soluções de IA desenhadas por e para agentes privados possam priorizar lucro em detrimento de equidade; segundo, que tecnologias importadas sem contextualização local minem a autonomia regulatória e operacional dos sistemas de saúde nacionais.
Em resposta, foi sublinhada a necessidade de políticas públicas claras, de investimentos que incluam formação para profissionais e cidadãos, e de mecanismos de avaliação e partilha de lições entre países. A conferência procurou, assim, colocar na agenda pública a exigência de que a IA na saúde sirva objetivos de bem-estar colectivo e não apenas interesses comerciais.
As decisões tomadas nos próximos anos sobre financiamento, regulação e governação da IA na saúde terão impacto direto na forma como as populações acederão a diagnósticos, tratamentos e seguimento clínico assistido por tecnologia. Por isso, a aposta em coordenação pública e em instrumentos que promovam acessibilidade e transparência foi apresentada como condição para que a inovação tecnológica cumpra a sua função social.
O debate em Lisboa agrega vozes que apelam à vigilância contínua: inovação e justiça social devem andar juntas se se pretende que a IA cumpra, verdadeiramente, um papel positivo no sector da saúde.