Poluição e fauna: canais do Recreio afetam jacarés-de-papo-amarelo
Imagens e relatos recolhidos em trechos do canal das Taxas, no Recreio dos Bandeirantes (zona oeste do Rio de Janeiro), mostram jacarés a nadar em águas com acumulação de lixo e a morder sacos plásticos na tentativa de alcançar restos de comida. O fenómeno expõe, numa área urbanizada entre lagoas e o mar, a sobreposição entre habitat natural e descarte irregular de resíduos.
O material observado inclui garrafas, bombonas, embalagens e objetos de lazer — até uma bola — depositados nas margens e no curso do canal, que desagua na lagoa de Marapendi, parte do complexo de lagoas da Barra da Tijuca. Fontes de campo verificaram, em abril e em finais de junho, a presença continuada dos animais nessas condições.
"o atendimento a ocorrências com animais silvestres em situação de risco é feito pela Patrulha Ambiental do município."
Contactada, a Secretaria Municipal de Meio Ambiente não comentou diretamente as imagens, mas referiu que a Patrulha Ambiental é o serviço responsável por ocorrências com animais selvagens em risco. A mesma resposta aponta a Comlurb (Companhia Municipal de Limpeza Urbana) como responsável pela remoção de resíduos das margens dos canais das Taxas, de Sernambetiba e do Cortado, quando a presença de jacarés não impede a operação, além de apoiar limpezas efectuadas por outros organismos.
Para especialistas, a presença frequente dos jacarés-de-papo-amarelo no Recreio e em bairros vizinhos resulta da história de ocupação destas áreas: são zonas úmidas transformadas por urbanização entre o mar e as lagoas, onde os animais continuam a circular apesar da pressão antrópica. O médico-veterinário e professor Flavio Fernando Batista Moutinho, da Universidade Federal Fluminense, assinalou que este padrão de coexistência com lixo é recorrente na zona.
Os registos oficiais de intervenção também refletem a escala do problema. Segundo dados do Corpo de Bombeiros Militar do Estado, no primeiro semestre deste ano houve 312 capturas e salvamentos de jacarés no estado, um aumento de 131% face aos 135 casos verificados no mesmo período do ano anterior.
- Ocorrência repetida em canais urbanos do Recreio dos Bandeirantes.
- Risco para animais expostos a resíduos plásticos e perigos associados.
- Intervenção institucional condicionada pela presença de jacarés e pela logística de limpeza.
| Período | Capturas/Salvamentos |
|---|---|
| Primeiro semestre (ano em curso) | 312 |
| Mesmo período (ano anterior) | 135 |
O caso ilustra problemas simultâneos: a gestão de resíduos em áreas urbanas e periurbanas, a manutenção de corredores húmidos que continuam a servir de habitat para espécies silvestres e a necessidade de coordenação entre equipas de remoção de lixo e equipas de atendimento a fauna. A presença de resíduos plásticos no focinho e no comportamento alimentar dos jacarés sublinha também os impactos directos da poluição na saúde animal e no bem-estar dos ecossistemas.
Sem comentários adicionais sobre acções imediatas por parte da Secretaria solicitante, as respostas oficiais remetem para protocolos de salvamento e para a realização de limpezas quando as condições de segurança o permitem. A situação reforça a urgência de medidas preventivas de gestão de resíduos e de monitorização dos habitats remanescentes dentro de malhas urbanas em expansão.