Propostas visam reforçar espaços verdes, proteção contra ondas de calor e participação cidadã
Um conjunto de doze especialistas e pensadoras reuniu-se no Círculo Universitário do Porto para desenhar cenários que orientem as políticas urbanas até 2050. O resultado, entregue recentemente à vice-presidente da Câmara Municipal do Porto, defende uma transformação da cidade em termos ambientais e de acessibilidade — com ênfase numa maior presença de espaços verdes e de uma relação reforçada entre a população e as margens do rio.
O documento, resultado do projecto da Fundação Futura designado "Máquina do Tempo", propõe várias medidas estruturantes para responder a desafios como o aumento das temperaturas e a necessidade de espaços públicos de qualidade. Entre as ideias centrais está a criação de um corredor universitário fechado a carros, pensado como um eixo que privilegia peões, bicicletas e transporte público entre pólos académicos.
"A experiência foi muito positiva."
Na apresentação do Mapa Porto 2050, uma das fundadoras do projecto realçou o carácter livre da sessão: pretendia-se fomentar a imaginação sem restrições, reunindo contributos que apontem para uma cidade mais humana e com maior proximidade aos recursos naturais. A proposta coloca a acessibilidade a áreas verdes perto das residências como prioridade, numa lógica de prevenção dos efeitos das vagas de calor.
- Proximidade verde garantida: cada residente a 300 metros de um espaço verde (conceito referido como prioritário no documento);
- Refúgios climáticos: criação de locais de sombra e arrefecimento em pontos estratégicos da cidade;
- Observatório independente: instituição que monitorize e represente o ecossistema verde e azul do Porto;
- Gestão participada: maior envolvimento dos cidadãos na conservação e monitorização da biodiversidade urbana.
O relatório organiza a cidade em quatro grandes blocos territoriais para facilitar a articulação de intervenções e políticas locais: Bonfim + Campanhã; Baixa + Paranhos; Ramalde + Aldoar; Foz + Lordelo do Ouro. Esta divisão tem por objetivo adaptar respostas em função das especificidades sociais, ambientais e infraestruturais de cada zona.
| Bloco | Prioridade |
|---|---|
| Bonfim + Campanhã | Requalificação de espaços públicos e interligação de corredores verdes |
| Baixa + Paranhos | Acesso às margens do rio e criação de refúgios climáticos |
| Ramalde + Aldoar | Preservação de biodiversidade e maior cobertura arbórea |
| Foz + Lordelo do Ouro | Proteção das áreas costeiras e maior fruição pública |
Entre as recomendações de política pública, destaca-se a proposta de um Observatório Independente que funcione como entidade técnica e institucional capaz de avaliar o estado do ecossistema urbano e promover a participação da sociedade civil. O documento aponta ainda para uma estratégia com quatro pilares: institucional e jurídico, social, digital e ambiental — cada um com medidas específicas para operacionalizar as metas ambientais e de inclusão.
Para além da definição de objetivos, o Mapa Porto 2050 coloca a ênfase na construção de capacidades locais: quer ver moradores mais envolvidos na proteção das margens do rio e na monitorização da biodiversidade, quer promover mecanismos que tornem tangíveis as áreas verdes no espaço imediato das habitações. O apelo às administrações passa pela integração destas medidas em políticas urbanísticas e de saúde pública, tendo em conta os efeitos das alterações climáticas nas populações mais vulneráveis.
O arquivo do encontro refere-se às sessões de 10 e 11 de julho, quando as ideias foram sistematizadas. O documento será agora matéria de análise para actores municipais e associações locais, que terão de avaliar viabilidade, calendarização e financiamento das propostas. Para os moradores do Porto, as recomendações traduzem-se em medidas concretas que podem alterar desde a arborização de ruas até à forma como se acede às margens do rio e aos espaços de lazer.
As propostas contêm tanto medidas de planeamento urbano como apelos à participação ativa dos habitantes, numa visão de cidade que combina qualidade ambiental, proximidade e resiliência climática.