Inovação nacional transforma desperdício de fabrico em matéria‑prima para cédulas
Uma solução desenvolvida em Portugal? Não — em Portugal a notícia interessa, mas o projecto é brasileiro e já demonstrou capacidade industrial: a Casa da Moeda do Brasil (CMB), a BP Security e o Instituto Tran$forma criaram um processo para recuperar fibras de algodão presentes em resíduos da produção de notas e reinseri‑las na fabricação de papéis de segurança. O consórcio afirma ter reaproveitado mais de 760 toneladas de resíduos e alcançado uma redução de até 92% nas emissões de CO2 face ao uso de algodão virgem.
O projecto não é um teste de laboratório. Após anos de investigação e validação, as fibras recuperadas foram tratadas e estabilizadas para cumprir especificações técnicas exigidas para papéis de segurança. Em ensaios com as chamadas «house notes», a inclusão de até 30% de fibras recicladas manteve as características essenciais de resistência e durabilidade exigidas internacionalmente.
Como funciona e quais as vantagens
- Recuperação: resíduos gerados no fabrico de cédulas são recolhidos em circuito industrial;
- Tratamento: processos de separação e estabilização preparam as fibras para voltar a ser matéria‑prima;
- Reincorporação: as fibras tratadas entram na fórmula dos papéis de segurança, substituindo parte do algodão virgem.
Além do benefício ambiental evidente, a solução reduz custos associados à compra de matéria‑prima virgem e optimiza a logística ao aproveitar infraestruturas já existentes entre os parceiros. O projecto foi ainda distinguido como o melhor da América Latina numa premiação do sector de documentos e impressão de alta segurança.
Impactos e limitações práticas
Em termos práticos, a introdução de até 30% de fibras recicladas significa que parte substancial do papel de segurança pode deixar de depender exclusivamente de algodão novo. No entanto, a transição exigiu rigorosos processos de validação para assegurar que a integridade técnica das notas não é comprometida — desde a resistência física até as propriedades de impressão e elementos de segurança.
"Mais do que reciclar, estamos criando um novo modelo de geração de valor para a indústria brasileira, com potencial de ser replicado”
A afirmação é de Patricio Malvezzi, fundador e CEO do Instituto Tran$forma, e sintetiza o objectivo do projecto: transformar um resíduo de alto valor num insumo estrategicamente relevante.
Dados essenciais
| Indicador | Valor |
|---|---|
| Resíduos reaproveitados | 760 toneladas |
| Redução de emissões (comparado com algodão virgem) | até 92% |
| Percentual máximo de fibras recicladas nas notas de teste | 30% |
Para além dos ganhos ambientais e de custo, o projecto coloca o Brasil numa posição de destaque no desenvolvimento de soluções de economia circular para produtos de alta segurança. A capacidade de replicação industrial e a distinção internacional reforçam a hipótese de que outras cadeias industriais com resíduos valiosos possam seguir caminho semelhante.
Resta acompanhar como a adoção em escala comercial será regulada e certificada pelas normas internacionais de papel moeda, e que impacto tudo isto terá nas políticas de compras públicas e soberania material dos países produtores.