Girinos ajustam alimentação, mas limites podem pôr em risco populações locais
Um estudo conduzido por cientistas do Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Ambientais (CE3C) da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa concluiu que girinos de um sapo presente na Península Ibérica, sul de França e norte de África alteram a sua dieta quando desenvolvem em águas mais quentes, numa tentativa de compensar o aumento do gasto energético provocado pela subida da temperatura da água.
Os resultados, relevantes para a conservação de anfíbios na região de Sintra e no resto do país, enquadram-se num quadro mais alargado: os anfíbios são hoje o grupo de vertebrados mais ameaçado, com cerca de 41% das espécies em risco de extinção a nível global. Entre 1980 e 2004, a maior parte do agravamento dos estatutos de conservação — 91% — foi atribuída a doenças e perda de habitat, mas as alterações climáticas têm vindo a ganhar peso como fator de pressão.
Segundo os investigadores, a condição de ectotermia dos anfíbios — isto é, a dependência da temperatura do ambiente para regular a sua fisiologia — faz com que a temperatura da água onde os girinos se desenvolvem seja determinante para o seu crescimento, saúde e, em última instância, sobrevivência. A identificação de comportamentos compensatórios, como a mudança de hábitos alimentares durante o estádio larvar, é considerada crucial para orientar medidas de conservação.
Para os habitantes de Sintra, com cursos de água, charcos temporários e áreas húmidas que acolhem anfíbios, o estudo sublinha dois pontos práticos:
- é necessária a preservação e gestão adequada dos habitats aquáticos para manter microclimas que permitam o desenvolvimento das larvas;
- a capacidade de adaptação dos girinos tem limites e, sem mitigação das causas climáticas e sem redução da perda de habitats, as populações locais podem ficar mais vulneráveis.
Os autores do trabalho alertam que, apesar destas estratégias comportamentais oferecerem alguma resiliência a curto prazo, não substituem a necessidade de ações mais amplas para reduzir emissões de gases com efeito de estufa e travar a destruição dos locais onde os anfíbios vivem. A investigação reforça a máxima das ciências da conservação de que é impossível proteger eficazmente o que não se conhece: aprofundar o conhecimento sobre como organismos respondem ao aquecimento ajuda a definir onde e como intervir.
| Dado | Valor |
|---|---|
| Espécies de anfíbios em risco | 41% |
| Agravamento por doenças e perda de habitat (1980–2004) | 91% |
| Proporção aproximada em risco | 2 em cada 5 |
Para o concelho de Sintra, as implicações são concretas: além da necessidade de monitorização das populações locais de anfíbios, importa incluir na gestão territorial medidas de proteção de corpos de água temporários e permanentes, controlo de poluição e prevenção de obras que fragmentem corredores ecológicos. Estas ações têm impacto direto na biodiversidade e também na qualidade ambiental que os residentes valorizam nas áreas verdes e nos parques naturais que rodeiam a vila e as freguesias do concelho.
O estudo reforça a urgência de políticas locais e regionais alinhadas com objetivos de conservação e adaptação climática, bem como a importância de projetos de ciência cidadã que envolvam a população na monitorização e protecção de habitats, incluindo a identificação de locais críticos para o desenvolvimento larvar de anfíbios.