Uma nova plataforma tecnológica portuguesa promete transformar a organização das clínicas de saúde mental ao automatizar tarefas administrativas e integrar apoio assistido por inteligência artificial. A Mena.ai, fundada por Francisco Ribeiro e Silva e Pedro Maria Rodrigues, apresenta‑se como uma solução pensada para libertar os clínicos do trabalho burocrático e permitir que se concentrem na relação terapêutica.
O que é a plataforma
A solução agrega num mesmo sistema funcionalidades essenciais para a prática clínica: agendamento, videoconsultas, pagamentos, facturação — incluindo ligação à Autoridade Tributária — e gestão das fichas de cliente. Em paralelo, a plataforma incorpora um agente de IA que funciona na infraestrutura da empresa e assiste o profissional, com um motor de memória clínica que recolhe dados dentro e fora das sessões.
“Libertar os profissionais de saúde mental das tarefas administrativas, dando-lhes a infraestrutura tecnológica e clínica para que se foquem no que não pode ser substituído: a relação com os seus pacientes.”
Segundo os responsáveis, a plataforma já recebeu a classificação "psychological by design" por parte da Ordem dos Psicólogos Portugueses no momento em que foi apresentada. A empresa sublinha também que o produto cumpre o RGPD e o EU AI Act, bem como requisitos de segurança de dados.
Impactos reivindicados e limites
A Mena.ai estima uma poupança de pelo menos duas horas por dia para cada profissional, resultante das automações e das funcionalidades de IA que simplificam processos administrativos. A plataforma inclui ainda uma aplicação para utentes, onde é possível agendar consultas, pagar, registar o estado emocional e cumprir tarefas propostas pelos terapeutas.
- Tempo: redução de pelo menos 2 horas/dia em tarefas administrativas, segundo a startup.
- Continuidade: pretende transformar a terapia num cuidado contínuo, não episódico.
- Validação clínica: o modelo original baseou‑se numa tese e num paper submetido à conferência ICT4AWE 2025, distinguido com um prémio.
Contexto técnico e ético
O percurso da Mena.ai começou com um projeto académico sobre um agente de IA de suporte terapêutico que funcionasse 24/7, mas mantendo o psicólogo responsável pela validação das análises. Essa abordagem sublinha a intenção de usar a IA como suporte e não como substituto do profissional. A existência de um "motor de memória clínica" que integra dados de várias fontes levanta questões práticas sobre governança, consentimento e segurança da informação — temas para os quais a startup afirma ter respostas ao referir conformidade regulatória.
O que muda na prática
Se as poupanças de tempo anunciadas se verificarem numa escala alargada, a consequência imediata poderá ser um aumento da disponibilidade dos clínicos para sessões de maior valor terapêutico, redução de atrasos administrativos e melhoria do acompanhamento contínuo dos doentes. No entanto, a eficácia operacional e o impacto real dependem de fatores como a adesão dos profissionais, integração com sistemas existentes e garantia efectiva da privacidade dos dados.
| Funcionalidade | Benefício anunciado |
|---|---|
| Agendamento e pagamentos | Processo centralizado e ligação à AT |
| Videoconsultas | Comunicação integrada com utentes |
| Agente de IA e memória clínica | Assistência ao profissional e recolha de dados contínua |
O avanço tecnológico no campo da saúde mental suscita interesse e também a necessidade de acompanhamento por parte de entidades reguladoras, ordens profissionais e responsáveis por políticas de saúde. Para além dos potenciais ganhos de eficiência, impõe‑se análise rigorosa sobre segurança, responsabilidade clínica e desigualdades de acesso à tecnologia.
O lançamento comercial da plataforma, a sua adoção por clínicas portuguesas e a avaliação independente dos efeitos na prática clínica serão determinantes para perceber até que ponto propostas deste tipo alteram positivamente a organização dos cuidados de saúde mental em Portugal.