A associação Zero reiterou esta sexta-feira a sua oposição à inclusão de um tabuleiro rodoviário na ponte prevista sobre o rio Douro no âmbito do projeto da linha ferroviária de alta velocidade entre o Porto e Gaia, e criticou a proposta de construção de um parque de estacionamento subterrâneo em Campanhã com cerca de 620 lugares. No comunicado enviado à agência Lusa, a organização aponta a contradição entre a aposta na ferrovia e a criação de capacidade rodoviária adicional num contexto de emergência climática.
Argumentos ambientais e risco de indução de tráfego
A Zero sublinha que a literatura científica aponta para o fenómeno de geração de procura (induced demand), pelo qual novas infraestruturas rodoviárias tendem a atrair tráfego adicional, anulando ganhos esperados em termos de descongestionamento e aumentando emissões. Neste enquadramento, a associação considera que a construção de elementos que facilitem a circulação automóvel não se coaduna com os objetivos nacionais e europeus de descarbonização dos transportes nem com o papel estruturante que uma estação de alta velocidade deve ter.
"Num contexto de emergência climática, de necessidade de redução das emissões do setor dos transportes e de forte investimento na ferrovia, a criação de capacidade rodoviária adicional constitui uma opção contraditória com os objetivos da política pública"
Alternativas em causa e mudanças propostas
O debate decorre no seguimento do novo Relatório de Conformidade Ambiental do Projeto de Execução (RECAPE), que confirma a existência de uma única ponte com dois tabuleiros e mantém prevista a localização da estação de Gaia em Santo Ovídio. No entanto, o consórcio vencedor — Mota-Engil, Serena, Teixeira Duarte, Alves Ribeiro, Casais, Conduril e Gabriel Couto — apresentou em abril de 2025 uma proposta alternativa: duas pontes separadas sobre o Douro e uma estação em Vilar do Paraíso, sem garantia de ligação ao metro.
- Recusa do tabuleiro rodoviário por considerar que promove o aumento do tráfego motorizado.
- Crítica ao parque subterrâneo de Campanhã com cerca de 620 lugares.
- Defesa da manutenção da estação em Santo Ovídio conforme o planeado no RECAPE.
Impactos locais e perguntas em aberto
Para os moradores e utilizadores do sistema de transportes do Grande Porto, as opções em debate têm efeitos práticos: a existência de mais espaço rodoviário e de estacionamento pode alterar padrões de deslocação quotidiana, influenciar a procura por viagens de carro e condicionar políticas de mobilidade sustentável na cidade e na margem sul. A mudança da estação para Vilar do Paraíso, quando proposta, levanta igualmente dúvidas sobre a integração com a rede de metro, fator determinante para a acessibilidade e para a opção modal dos passageiros.
| Elemento | Previsão no RECAPE | Alternativa proposta |
|---|---|---|
| Ponte sobre o Douro | Uma ponte com dois tabuleiros (rodoferroviária) | Duas pontes separadas (proposta do consórcio, abril 2025) |
| Estação de Gaia | Santo Ovídio | Vilar do Paraíso (sem garantia de ligação ao metro) |
| Estacionamento em Campanhã | Parque subterrâneo com cerca de 620 lugares | — |
Em termos de transparência e de planeamento urbano, permanecem por clarificar os critérios técnicos, ambientais e de mobilidade que levaram à inclusão do tabuleiro rodoviário e do parque em Campanhã e a ponderação feita relativamente às alternativas apresentadas pelo consórcio. A discussão pública sobre estes pontos será decisiva para aferir se o projeto concretiza uma aposta de transição modal ou reforça dinâmicas de dependência automóvel.
Do ponto de vista dos utentes, qualquer alteração de localização da estação ou de ligação a transportes locais — nomeadamente o metro — terá consequências imediatas na acessibilidade ao serviço de alta velocidade e na articulação entre as margens do Douro. A associação Zero, ao pôr o foco nestes elementos, procura trazer a debate público a compatibilidade entre o investimento ferroviário e as políticas climáticas que Portugal e a União Europeia assumiram.