Ofício tradicional em perigo: autarquia procura respostas para assegurar futuro
A Câmara Municipal de Lisboa considera que o risco de extinção da profissão de calceteiro é uma ameaça permanente e reconhece a necessidade de medidas concertadas com o Governo para evitar a perda daquela actividade ligada à manutenção e criação da calçada portuguesa.
A autarquia reforçou este ano a equipa dedicada à calçada artística, passando de 20 para 40 profissionais, mas a vereadora responsável por Projetos e Obras em Espaço Público sublinha que esse aumento ainda não compensa a significativa idade média do corpo profissional. A faixa etária actual, segundo a autarquia, situa-se acima dos 55 anos e aponta para reformas em massa dentro de cerca de uma década.
“Por trás da calçada estão calceteiros, que é uma classe profissional que enfrenta um enorme desafio”
O Município destaca também a existência de concursos em curso para contratação, mas admite que o principal problema não é apenas repor números: trata-se de rejuvenescer a profissão e de tornar a carreira mais atractiva para quem entra no mercado de trabalho. Entre as hipóteses apontadas pela vereação estão alterações remuneratórias e reforço da formação profissional.
- A CML já aposta na formação: existem escolas específicas de calceteiros e de jardinagem, que este ano celebram quatro décadas.
- Apesar do aumento temporário do efectivo, a renovação geracional é considerada insuficiente face ao desgaste físico da actividade.
- O município apela a medidas públicas combinadas com incentivos para atrair jovens para a profissão.
Representantes como o historiador Rui Matos, o mestre calceteiro Carlos Calceteiro e o Sindicato dos Trabalhadores do Município de Lisboa confirmam que, na prática, cerca de 20 trabalhadores se encontram em funções efectivas, com concursos a decorrer para colmatar vagas. Essa divergência entre efectivos em exercício e o número de contratações anunciadas evidencia a transição em curso e a dificuldade em estabilizar o quadro de pessoal.
Para os residentes e utentes da cidade, a preservação desta mão-de-obra tem consequências palpáveis: a calçada portuguesa não é apenas elemento estético, é também componente de segurança e mobilidade pedonal, exigindo manutenção qualificada. A perda de mestres calceteiros ameaça a capacidade de conservar padrões artísticos e técnicos que caracterizam largas zonas do espaço público lisboeta.
Entre as medidas práticas referidas pela Câmara estão a valorização salarial dentro dos limites legais e a intensificação de formação nas escolas municipais. A longo prazo, a autarquia defende que será necessário conjugar políticas locais e nacionais para criar percursos profissionais atrativos e sustentáveis para esta profissão tradicional.
| Indicador | Valor referido |
|---|---|
| Profissionais em exercício (confirmados) | 20 |
| Equipa reforçada pela CML | 40 |
| Média etária | Acima de 55 anos |
O desafio colocado à cidade passa assim por duas frentes: garantir vagas imediatas para assegurar a manutenção do espaço público e criar condições de carreira — remuneração e formação — que motivem novas gerações a aprender o ofício. Sem essa conjugação, adverte a vereação, corre-se o risco de perder um capítulo da identidade urbana lisboeta.