Alerta da OMS: contágio supera ritmo da resposta
O diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS) afirmou, durante uma visita à capital da República Democrática do Congo, que a actual epidemia de Ébola está a propagar-se mais depressa do que os esforços para a combater. Quase três meses após o início do surto, há áreas em que o número de casos novos está a duplicar, segundo informações partilhadas por Tedros Adhanom Ghebreyesus na rede social X depois de uma reunião com responsáveis governamentais em Kinshasa.
A situação coloca múltiplos desafios operacionais e humanitários: aceder a localidades remotas, coordenar ações sob a liderança do Governo, proteger os profissionais de saúde e garantir que as comunidades afectadas participam ativamente na resposta. A província de Ituri, apontada como epicentro do surto, enfrenta igualmente problemas de segurança devido a conflitos com grupos armados, o que agrava o acesso aos cuidados.
"Todos concordamos que é necessário aumentar urgentemente e de forma massiva todos os nossos esforços em todas as frentes da resposta e com a participação de todos os parceiros"
Os números oficiais mais recentes do Ministério da Saúde da RDC, citados pela OMS, indicam 3.874 casos confirmados e 1.751 mortes. Estes valores fazem deste surto o segundo maior registado até ao momento, apenas atrás da epidemia em África Ocidental de 2014–2016.
Impacto sobre profissionais de saúde e resposta internacional
Além dos problemas logísticos e de segurança, há relatos de greves de profissionais de saúde na província de Ituri, o que reduz ainda mais a capacidade de prestar cuidados e de implementar medidas de contenção. Trabalhadores afirmam ter começado a receber alguns pagamentos relativos ao trabalho realizado desde o início do surto, mas continuam a reivindicar melhores salários e condições.
- Epicentro: província de Ituri (leste da RDC).
- Casos confirmados: 3.874.
- Óbitos: 1.751.
- Apoio anunciado: 242 milhões de dólares pelo Departamento de Estado dos EUA (cerca de 208 milhões de euros).
O anúncio de financiamento pelos Estados Unidos — 242 milhões de dólares destinados à resposta imediata, preparação regional e assistência humanitária — mostra a escala da mobilização necessária. No terreno, porém, continua a ser essencial melhorar a coordenação, garantir segurança e acesso às populações isoladas e reforçar a protecção dos profissionais que asseguram os cuidados.
Consequências e prioridades
Os responsáveis da OMS e as autoridades congolesas sublinham que a participação das comunidades tem de estar no centro da resposta: explicitar medidas de prevenção, aceitar intervenções de saúde pública e colaborar com equipas de rastreio e vacinação são determinantes para inverter a trajectória da epidemia. A progressão rápida do surto evidencia também a necessidade de resposta integrada, que combine saúde pública, segurança, logística e apoio humanitário.
| Indicador | Valor |
|---|---|
| Casos confirmados | 3.874 |
| Óbitos | 1.751 |
| Financiamento anunciado (EUA) | 242 milhões de dólares (~208 milhões de euros) |
Para além do esforço financeiro, a resposta exige medidas práticas: intensificar vigilância epidemiológica, ampliar campanhas de comunicação adequada às realidades locais, garantir cadeias logísticas seguras para vacinas e tratamentos, e negociar corredores humanitários em zonas de conflito. O atraso ou a fragmentação dessas acções pode traduzir-se em mais casos e mortes, sobretudo em comunidades vulneráveis e remotas junto às fronteiras com Sudão do Sul, Uganda e Ruanda.
À escala global, a rapidez de propagação deste surto funciona como um lembrete da importância de sistemas de saúde resilientes, cooperação internacional e de planos de contingência que combinem saúde, segurança e assistência humanitária, sem sobrepor a liderança das autoridades locais nem excluir as populações afectadas do processo de decisão.