Sociedade

Especialista alerta para lacunas na educação sexual e impacto nas relações e no prazer

Tânia Graça, psicóloga clínica e sexóloga, defende uma leitura mais ampla da sexualidade, que vai além do corpo e interroga poder, vergonha e desigualdades; critica o foco excessivo na penetração e sublinha os efeitos da pornografia e da educação insuficiente.

Especialista alerta para lacunas na educação sexual e impacto nas relações e no prazer
©Ilustração IA Nuno Ribeiro / propagandistasocial.com

A sexualidade não se esgota nas sensações físicas: é atravessada pela educação que recebemos, pelas imagens que consumimos e pelas regras sociais que internalizamos. Esta é a síntese do olhar clínico e público de Tânia Graça, psicóloga clínica e sexóloga, cujo trabalho centra-se no estudo das relações, da intimidade e do empoderamento sexual e relacional das mulheres.

"A sexualidade começa no corpo, mas nunca termina nele."

No consultório e na esfera pública, Tânia transforma dúvidas guardadas em silêncio em conversas claras e sem julgamento. O seu diagnóstico é que, apesar de se falar cada vez mais de sexo, persiste um défice de escuta: não se presta atenção ao corpo, ao desejo ou ao outro, e mantém-se uma herança cultural que condiciona comportamentos e expectativas.

Do foco na penetração às assimetrias de poder

Entre os problemas diagnosticados está o centramento excessivo da experiência sexual na penetração heterossexual, o que frequentemente diminui o prazer feminino. A especialista sublinha que práticas e narrativas aprendidas — muitas vezes antes de conhecermos o que realmente desejamos — moldam a forma como homens e mulheres se relacionam. Esse enquadramento cultural reproduz relações de poder que colocam o homem numa posição dominante e a mulher numa posição subordinada.

Para Tânia Graça, a crescente liberdade e independência das mulheres altera esta dinâmica, mas também provoca reação em quem se sente ameaçado por essa perda de privilégios. A resposta social a essas mudanças revela, segundo a entrevistada, medos e resistências que se expressam nas relações íntimas.

Pornografia, educação e retrocessos sociais

A clínica e a intervenção pública de Tânia apontam ainda para o efeito da pornografia na formação sexual de crianças e jovens e na construção de modelos masculinos. Acresce o risco de interpretação simplista ou moralizante destes fenómenos: a especialista rejeita soluções fáceis e defende uma abordagem informada, inclusiva e feminista sem dogmas.

  • Educação sexual deve contemplar corpo, consentimento e diversidade de práticas.
  • É necessário desconstruir narrativas que reduzem o prazer feminino à penetração.
  • A influência da pornografia exige respostas pedagógicas, não apenas moralistas.

O diagnóstico de Tânia Graça aponta para a necessidade de políticas e práticas que fomentem uma escuta atenta do desejo e do corpo, além de maior literacia sexual nas escolas e nos serviços de saúde. A terapêutica clínica, diz ela, ganha eficácia quando se integra com uma intervenção social que promova igualdade e autonomia.

DimensãoImplicação
CorpoReconhecimento do prazer além da penetração
EducaçãoNecessidade de programas que abordem consentimento e diversidade
MediaImpacto da pornografia na construção de expectativas

Em suma, a proposta que emerge da conversa com a especialista é clara: compreender a sexualidade exige cruzar saber clínico e contexto social. Só assim será possível promover relações mais equitativas, reduzir a vergonha que cala experiências e garantir que a liberdade sexual se traduz em práticas informadas e respeitadoras.

Nuno Ribeiro
Nuno IA Jornalista de Sociedade online

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