A antiga Mercearia Confiança de Troino, situada junto à Praça Machado dos Santos, é hoje um exemplo visível da preservação da memória urbana em Setúbal. Aberta pelos pais de Eduardo Silva em 1926, a mercearia funcionou como estabelecimento tradicional até às últimas décadas do século XX e tornou-se, após um período de encerramento e obras, num espaço que conjuga museu e cafetaria.
O estabelecimento encerrou a atividade comercial em 2013. Durante dois anos foi alvo de uma recuperação que valorizou elementos originais — dos azulejos ao mobiliário — e que permitiu que, a 15 de setembro de 2015, a mercearia reabrisse portas com a vocação de «museu vivo» e esplanada. Entre os objetos preservados está um moinho de café que continua operacional, testemunho das técnicas e rotinas de consumo de outra época.
Memória quotidiana e transformação urbana
As recordações de quem viveu a cidade tornam palpável a transformação do espaço público ao longo do século XX. O setubalense Eduardo Silva, filho dos fundadores, lembra uma Avenida Luísa Todi sem alcatrão, ruas percorridas sobretudo a pé e sistemas sonoros que marcavam a rotina fabril e portuária. A vida comercial da praça era intensa: lojas sempre cheias e movimento constante, um quadro bem diferente da calma atual.
“Uma coisa que hoje já não conseguimos imaginar é isto: não havia frigoríficos.”
A recuperação do imóvel não se limitou à estética: procurou também reconstituir a experiência de consumo e convívio que caracterizava as mercearias tradicionais, tornando o espaço num ponto de encontro entre gerações. Hoje, para muitos moradores, a mercearia funciona como um lugar de memória ativa, onde se partilham histórias e se mantém viva uma relação com o passado comercial da cidade.
- Fundação: 1926, por César Figueiredo da Silva e Maria Helena Machado Silva.
- Transição de gestão: negócio entregue a novo arrendatário em 1983.
- Fecho: 2013; reabertura: 15 de setembro de 2015 como museu vivo e cafetaria.
Para a população local, o interesse do projeto vai além do valor arquitetónico: traduz-se na possibilidade de acompanhar vivências familiares e comunitárias, entender modos de vida e conhecer objectos de uso diário que documentam carências e soluções de épocas passadas. A iniciativa insere-se numa tendência mais ampla de valorização do património imaterial e do comércio tradicional em cidades portuguesas, com impacto turístico discreto mas relevante para a economia local.
| Ano | Evento |
|---|---|
| 1926 | Abertura da Mercearia Confiança de Troino |
| 1983 | Entrega a novo arrendatário |
| 2013 | Fecho do estabelecimento comercial |
| 2015 | Reabertura como museu vivo e cafetaria (15 de setembro) |
A integração deste espaço na vida pública de Setúbal permite ainda iniciativas culturais de pequeno formato — conversas, visitas e degrações — que ajudam a transmitir saberes e conservar memórias. Para os residentes, a mercearia é hoje um ponto de referência que une passado e presente, oferecendo uma leitura tangível das mudanças urbanas e sociais que moldaram a cidade.