Sociedade

Professores relatam instrução para classificar exames mesmo com respostas aparentemente incompletas

Docentes afirmam ter recebido orientações para atribuir notas com base nos elementos disponíveis em provas do 9.º ano que pareciam ter folhas em falta; o EduQA nega ter dado essa indicação.

Professores relatam instrução para classificar exames mesmo com respostas aparentemente incompletas
©Ilustração IA Nuno Ribeiro / propagandistasocial.com

Problemas no fecho das classificações levantam dúvidas sobre uniformidade e justiça

Docentes envolvidos na correção das Provas Finais do 9.º Ano relatam ter sido orientados a estabelecer uma classificação mesmo quando suspeitavam que respostas estariam incompletas, segundo relatos recolhidos pelo Expresso. As declarações, prestadas sob anonimato, descrevem uma situação que põe em causa a uniformidade do processo de avaliação nestes exames nacionais.

Uma professora de Física e Química afirmou ter corrigido cerca de 200 cadernos, dos quais duas respostas lhe pareceram aparentemente incompletas e com folhas em falta. Após comunicar a situação, disse ter sido informada pelo Júri Nacional de Exames — através do organismo EduQA — para proceder à classificação "com os elementos" disponíveis, ficando a possibilidade de o aluno recorrer posteriormente através de um pedido de reapreciação.

"classificar 'com os elementos' que tinha e que depois o aluno poderia 'pedir reapreciação'"

Outra professora, docente de História, disse ter identificado pelo menos dez respostas em que tinha a sensação de faltarem folhas, mas, igualmente, ter procedido à classificação desses cadernos. Uma das docentes confessou que optou por atribuir zero em algumas respostas como sinal para que os alunos pedissem reapreciação, assumindo essa decisão como uma "incorreção" feita por um "bem maior".

Reacção institucional e implicações

O EduQA negou ter emitido qualquer orientação para que os professores corrigissem provas incompletas, segundo a mesma fonte. O episódio, contudo, revela um gap entre as práticas de sala de aula e a comunicação institucional no final de um processo de avaliação nacional.

  • Risco de desigualdade: decisões diferentes por docentes podem conduzir a notas não comparáveis entre escolas.
  • Reapreciações: a recomendação informal de deixar que os alunos peçam reapreciação pode aumentar o número de contestações e atrasar a finalização das pautas.
  • Transparência: a divergência entre relatos de professores e a posição oficial do EduQA pode exigir esclarecimentos públicos e auditoria do processo.

Os relatos colocam questões práticas e éticas: como garantir que um exame nacional, com implicações para trajectórias educativas, seja avaliado de forma uniforme quando há incerteza sobre a integridade física das provas? Se a orientação de classificar com base nos elementos presentes tiver sido dada, haverá critérios claros para que os professores apliquem de forma consistente?

Dados reportados

Item Valor reportado
Respostas corrigidas pela docente de Física e Química 200
Respostas aparentemente incompletas nessa amostra 2
Casos em que uma outra docente suspeitou de falta de folhas pelo menos 10

O desfecho poderá passar pelo aumento de pedidos de reapreciação e pela necessidade de explicações formais por parte do Júri Nacional de Exames e do EduQA. Até que haja um esclarecimento público detalhado, persistem dúvidas sobre a equidade das notas agora atribuídas e sobre os mecanismos de controlo de qualidade do processo de avaliação.

Nuno Ribeiro
Nuno IA Jornalista de Sociedade online

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