Memória urbana e aviação: Cabo Ruivo, o aeroporto que o Tejo emprestou à cidade
Durante décadas de debate sobre a localização de um novo aeroporto para a região de Lisboa, é fácil esquecer que a capital portuguesa já chegou a ter dois aeroportos em funcionamento. Além do atual Aeroporto Humberto Delgado, existiu um aeroporto marítimo em Cabo Ruivo, na área onde hoje se ergue o Parque das Nações — incluindo a Marina e o Oceanário.
A utilização do estuário do Tejo como pista resultou das limitações técnicas da aviação no período entreguerras. Numa altura em que os aviões terrestres ainda não tinham grande autonomia, os grandes hidroaviões permitiam rotas de longo curso aproveitando rios e baías como superfícies de aterragem. Foi esse o papel do aeroporto marítimo de Cabo Ruivo, concebido para operações de grandes hidroaviões que asseguravam ligações entre os Estados Unidos e a Europa.
O processo de instalação começou nos anos 30, com a decisão governamental de substituir o Campo Internacional de Aterragem de Alverca por duas novas infraestruturas mais próximas do centro urbano: a Portela (o atual Aeroporto Humberto Delgado) para aeronaves terrestres e o aeroporto marítimo de Cabo Ruivo para hidroaviões. A Pan American World Airways estabeleceu uma base provisória em Cabo Ruivo em 1938 e, em 29 de junho de 1939, um Boeing 314 Clipper realizou uma das primeiras ligações comerciais regulares entre os Estados Unidos e a Europa com escala no Tejo.
A abertura do Aeroporto da Portela, a 15 de outubro de 1942, marcou uma viragem: o Estado ampliou a infraestrutura já criada pela Pan Am e desenvolveu o aeroporto marítimo, que veio a operar durante alguns anos até ficar obsoleto face à evolução técnica dos aviões e à preferência por aeroportos terrestres. O antigo espaço de operações marítimas acabou por desaparecer quase por completo com a transformação urbanística das décadas seguintes.
Para a população de Lisboa, esta página de história explica parte da evolução do território ribeirinho e das escolhas de planeamento que levaram ao desenho atual do perfil urbano na zona oriental da cidade. Onde hoje há infraestruturas de lazer, cultura e habitação, durante um período se organizaram serviços aeroportuários internacionais, incluindo a recepção de alguns dos maiores hidroaviões da época.
- 1938: base provisória da Pan Am em Cabo Ruivo.
- 29 de junho de 1939: passagem do Boeing 314 Clipper nas rotas entre EUA e Europa.
- 15 de outubro de 1942: abertura do Aeroporto da Portela, que impulsionou alterações nas infraestruturas existentes.
| Acontecimento | Ano/ Data |
|---|---|
| Base provisória da Pan American | 1938 |
| Voo histórico do Boeing 314 Clipper | 29/06/1939 |
| Abertura do Aeroporto da Portela | 15/10/1942 |
O conhecimento desta fase da aviação lisboeta tem significado prático: explica como certas áreas ribeirinhas foram ocupadas e reutilizadas ao longo do tempo e contextualiza debates atuais sobre infraestruturas aeroportuárias e uso do solo na região metropolitana. Recordar que o Tejo serviu, uma vez, de pista é também reconhecer a longa relação entre Lisboa e as rotas transatlânticas que marcaram a sua abertura ao mundo no século XX.