Controvérsia sobre corrida nacional num dos espaços mais sensíveis do Gerês
A Quercus reagiu com veemência à decisão do Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) de permitir a passagem da 7.ª Volta a Portugal pela Mata da Albergaria, no Parque Nacional da Peneda-Gerês (PNPG). Em comunicado, a associação ambientalista sustenta que as condicionantes impostas não anulam os impactes ambientais e criam “um grave precedente” para a gestão daquela zona protegida.
O ICNF anunciou a autorização sujeita a um conjunto de medidas, entre as quais a interdição ao público em setores mais sensíveis, a limitação do número de veículos de apoio e a proibição do recurso a meios aéreos e a amplificação sonora. Para a Quercus, essas restrições podem atenuar alguns efeitos, mas não respondem à questão de fundo: a realização de uma prova desportiva de dimensão nacional com a respetiva comitiva e logística no coração de uma das áreas naturais mais frágeis do País.
“A Mata de Albergaria não é lugar para a passagem da prova”,
Na nota divulgada, a associação lembra que a Mata integra zonas de proteção parcial de tipo I e está ladeada por áreas de proteção total. Salienta, ainda, que a autorização levanta dúvidas sobre a conformidade com o Plano de Ordenamento do PNPG. A Quercus defende que, perante a existência de alternativas viáveis, «a conservação de uma das áreas mais sensíveis do único Parque Nacional português deve prevalecer».
Medidas impostas versus riscos apontados
As medidas anunciadas pelo ICNF visam reduzir alguns impactos imediatos, mas a Quercus alerta para efeitos acumulados e para a pressão pré-existente de tráfego e turismo na Mata da Albergaria. No seu entender, essa pressão deveria conduzir a políticas de redução e ordenamento do trânsito, e não servir de justificação para autorizar eventos de grande envergadura.
- Restrição de acesso do público em setores sensíveis
- Limitação dos veículos de apoio e logística
- Proibição de meios aéreos e de amplificação sonora
- Inexistência pública, até agora, de estudo de capacidade de carga
| Medida | Efeito pretendido |
|---|---|
| Interdição ao público em setores sensíveis | Redução de distúrbios diretos à fauna e à flora |
| Limitação de veículos de apoio | Diminuição de emissões e compactação do solo |
| Proibição de meios aéreos e amplificação sonora | Menor perturbação acústica e visual |
Apesar das medidas, a Quercus frisa a ausência pública de uma avaliação da capacidade de carga da Mata de Albergaria, informação que considera essencial para fundamentar decisões que envolvem impacto humano intenso. A associação alerta para o risco de que este caso sirva de referência para autorizações futuras em áreas protegidas, definindo um precedente administrativo e de gestão.
As tensões entre promotores de eventos desportivos e entidades de conservação não são novas, mas o episódio no Gerês coloca novamente em evidência a necessidade de clareza sobre critérios de compatibilidade entre atividades humanas e zonas com estatuto de proteção elevado. A discussão promete prolongar-se até que exista uma resposta pública mais detalhada sobre a avaliação ambiental e o enquadramento legal da autorização concedida.
Perante a proximidade da etapa, que está marcada para quinta-feira, as expectativas centram-se agora em saber se haverá alterações de última hora ao percurso e que garantias adicionais o ICNF e os organizadores conseguirão apresentar para mitigar riscos e responder às críticas da comunidade ambientalista.