Um protagonista entre duas ilhas e uma travessa
Em tempo de Mundial, é inevitável que se olhe de lupa para quem habita o epicentro do futebol. No caso português, a conversa ganhou novo fôlego após a eliminação frente à Espanha, país onde nasceu Roberto Martínez e que, não obstante, raramente foi o seu palco de eleição. Agora ex-selecionador de Portugal, o treinador tem um percurso que desconcerta quem o julga apenas por origem: a identidade profissional de Martínez foi moldada, quase por inteiro, no Reino Unido.
O detalhe pode soar inesperado a quem não acompanha de perto o itinerário do técnico: saiu de Espanha aos 21 anos, sem falar inglês, e ergueu carreira e vida no universo britânico. Entre Inglaterra e Escócia passaram-se cerca de três décadas. Por lá casou-se com uma escocesa, por lá viria a ver as filhas crescerem com o inglês por língua de berço e, inevitavelmente, absorveu a escola tática e a cultura de jogo locais.
«Fiz toda a minha carreira no Reino Unido»
Esse enraizamento foi o próprio treinador a reconhecê-lo, anos antes de chegar ao banco de Portugal. Em 2021, numa entrevista ao El País, sintetizou assim a distância emocional ao país natal quando já vestia o fato de treinador:
"Como treinador, não creio ter assinado um único autógrafo em Espanha. É normal, fiz toda a minha carreira no Reino Unido e é muito difícil criar essa ligação com as pessoas."
A frase não é um desabafo de circunstância; é a radiografia de um caminho. Martínez construiu reputação em relvados britânicos muito antes de orientar balneários. Não foi apenas do banco que viu o jogo: antes, deixou pegada como médio, com seis temporadas ao serviço do Wigan, somando 181 jogos e 23 golos. Em 2005, recebeu da BBC uma distinção simbólica mas eloquente: o reconhecimento como o melhor jogador da história do clube.
| Clube | Épocas | Jogos | Golos | Distinção |
|---|---|---|---|---|
| Wigan | 6 | 181 | 23 | 2005: melhor da história (BBC) |
Do relvado ao banco — e um encontro com o melhor do mundo
O arco narrativo tem um ponto de viragem com sabor a encontro improvável. Anos após a fase de jogador, Martínez teria pela frente a gestão de balneários repletos de nomes maiores. Entre eles, o homem que o planeta futebol habituou a descrever como o melhor do mundo: Cristiano Ronaldo. Aponte-se a ironia geográfica — um espanhol, tornado quase britânico pelo seu percurso, a orientar o maior símbolo da seleção portuguesa — e percebe-se a razão por que a sua figura mantém viva a curiosidade pública.
Gastronomia em campo: o prato que une treinador e capitão
Nem só de esquemas táticos vive a crónica. Na apresentação como selecionador nacional, a Federação Portuguesa de Futebol lançou-lhe perguntas de portugueses, e uma das primeiras mudou de relvado: restaurantes e sabores. A resposta desenhou uma ponte imediata com o capitão da Seleção. Tal como Cristiano Ronaldo, Martínez declarou preferência por bacalhau à Brás. E foi além: confessou ser difícil dizer que não a bacalhau, «independentemente da forma como é confecionado». Um detalhe simples, mas revelador da forma como o treinador foi adoptando traços de portugalidade quotidiana durante a passagem por cá.
Entre identidades: o técnico de várias casas
Há um traço que percorre a biografia: a facilidade em habitar fronteiras. Nascido em Espanha, formado no futebol britânico, profissionalizado num circuito que o reconhece como um dos seus, e, por fim, colocado perante a mais alta responsabilidade do futebol português. A biografia de Martínez ilustra algo frequente no desporto global: a pertença deixa de ser um ponto no mapa e passa a ser uma coleção de experiências, sotaques e rotinas — algumas tão prosaicas como uma travessa de bacalhau que aparece à mesa.
O que fica depois do apito final
Com a saída após a eliminação portuguesa frente à Espanha, resta um retrato sem ruído: o de um profissional que cruzou culturas e que, no essencial, encontrou no Reino Unido a casa onde a sua carreira se fez adulta. A memória de adepto guardará números, jogos e escolhas técnicas; já o caderno de notas do insólito fica com o sabor a bacalhau à Brás partilhado com CR7, e com a constatação de que nem sempre a origem e o destino se reconhecem ao primeiro olhar.
- Percurso internacional: saída de Espanha aos 21 anos e consolidação de carreira no Reino Unido.
- Marca no Wigan: 181 jogos, 23 golos, 6 temporadas e distinção da BBC em 2005.
- Ligação a Portugal: preferência por bacalhau à Brás, partilhada com Cristiano Ronaldo, revelada na apresentação pela FPF.