A proposta da FIFA de criar uma nova subsidiária para gerir e valorizar comercialmente competições como o Campeonato do Mundo e o Mundial de Clubes provocou uma resposta firme por parte das estruturas do futebol europeu, que colocam em dúvida a legitimidade e a transparência do processo e chegaram a ponderar um boicote às selecções do Velho Continente.
Reacção europeia e riscos políticos
Em causa está a criação da Fifa Forward Enterprise (FFE), uma sociedade destinada a concentrar as operações comerciais de eventos globais. A ideia envolve a venda de participações minoritárias a investidores privados, mantendo a FIFA com a maioria do capital. A proposta foi apresentada esta semana e teve imediata contestação da UEFA, que considera a manobra uma ruptura inaceitável com os princípios de governação do futebol.
Organizações nacionais e confederações ligadas à UEFA convocaram já conversas para uma resposta comum. Segundo fontes europeias, está prevista uma reunião virtual ainda esta semana para alinhar estratégias, incluindo a possibilidade extrema de boicote ao Campeonato do Mundo — cenário que colocaria Portugal, co-anfitrião do torneio em 2030, no roteiro de consequências diplomáticas e desportivas.
Argumentos e contra-argumentos
A FIFA justifica o plano com argumentos financeiros e de redistribuição: a entidade estima que a nova empresa teria um valor total de 17,5 mil milhões de euros e que a venda de acções no montante de 3,7 mil milhões garantiria a presença de investidores privados em posição minoritária. Parte do argumento é que esse encaixe permitiria aumentar substancialmente os fundos distribuídos às federações-membro.
| Item | Valor |
|---|---|
| Valoração estimada da FFE | 17,5 mil milhões € |
| Venda planeada de acções | 3,7 mil milhões € |
| Financiamento atual por federação | 7 milhões € |
| Financiamento previsto até 2030 | 17,45 milhões € |
| Financiamento previsto até 2038 | 21 milhões € |
Em sentido contrário, a UEFA acusou a FIFA de tentar transformar em mercadoria a governação e o património colectivo do futebol. A organização europeia defendeu que a transparência do processo é insuficiente e advertiu para riscos de concentração de poder e de conflitos de interesse entre investidores e os diversos actores do desporto.
“Isto cruza uma linha que as instituições governamentais do futebol nunca deveriam cruzar. A UEFA leva isto extremamente a sério. Todas as federações nacionais de futebol também o deveriam levar. Todos os intervenientes também: ligas, clubes, jogadores, adeptos, governos e todos os que se preocupam com o futuro do desporto. A alma e a governação do futebol não são ativos para negociar — especialmente com zero transparência sobre quem ganha financeiramente. Nenhum de nós é dono do futebol. Não cabe à FIFA vendê-lo!”
Consequências práticas para Portugal
Para Portugal, a polémica ocorre em vésperas de assumir papel central na organização do Mundial de 2030, em conjunto com Espanha e Marrocos. Um boicote europeu complicaria significativamente a realização do torneio em termos de legitimidade, audiências e patrocínios, além de criar cenário de crise institucional entre federações e a casa-mãe do futebol mundial.
- Risco diplomático: tensão entre federações europeias e FIFA pode envolver ministérios e autoridades nacionais do desporto.
- Impacto comercial: alterações nos patrocínios e direitos televisivos do Mundial, com reflexos financeiros em organizadores locais.
- Calendário desportivo: possibilidade de boicote coloca em causa a presença de selecções europeias e a competitividade do torneio.
As próximas semanas serão determinantes: a FIFA mantém a defesa do projecto como mecanismo para reforçar o financiamento das federações, enquanto a UE e as confederações europeias procuram alinhar uma resposta que possa ir do protesto formal até à recusa coletiva. Portugal, enquanto anfitrião, vê-se assim no epicentro de uma das discussões mais sensíveis sobre o futuro económico e institucional do futebol global.