Ofício e tempo: o bastidor que o público não vê
O brilho e a cor que inundam a Avenida durante o Carnaval de Ovar começam muito antes dos desfiles. Atrás dos adereços e dos padrões há meses de trabalho de planeamento, corte, costura e acabamento, protagonizados por quem transforma desenhos em trajes prontos a desfilar.
Em São Miguel de Ovar, o atelier Angela Arts é um exemplo deste labor. Ali, Ângela Granja, que tem 64 anos, trabalha há mais de quatro décadas na criação de fatos e fantasias. Começou a coser ainda muito jovem — lembra que aos 22 anos já era costureira e que a paixão surgiu antes, com uma máquina de costura que recebeu na infância.
Um saber-fazer ameaçado, mas ainda decisivo
Cada edição do Carnaval envolve as 24 associações participantes, cujas propostas são depois materializadas por quem domina técnicas e soluções que não se improvisam. O trabalho técnico e criativo exige rigor, paciência e muitas horas de dedicação — capacidades que, segundo as próprias profissionais, são cada vez menos procuradas pelas gerações mais jovens.
«os jovens já não querem saber»
Esta constatação, expressa por quem passa a vida a costurar para as festas, coloca uma preocupação clara: a continuidade do ofício. Se a transmissão dessas competências não for incentivada, a capacidade de produzir internamente grande parte dos materiais do Carnaval pode ficar comprometida ao longo do tempo.
- Ofício: costura e construção de fantasia
- Duração média do trabalho: meses de preparação antes dos desfiles
- Actores: ateliers locais, costureiras experientes, associações do concelho
Impacto local e desafios
O Carnaval é uma das imagens de marca do concelho e movimenta não só a criatividade mas também economia local ligada a materiais, oficinas e logística dos desfiles. A perda de técnicos especializados agrava a necessidade de formação e de políticas locais que valorizem ofícios tradicionais, sob pena de aumentar a dependência de serviços externos ou de alterar a natureza artesanal do evento.
O testemunho de profissionais como Ângela Granja evidencia que a festa não é apenas espetáculo: é o resultado de um ecossistema humano que integra associações, ateliers e saberes transmitidos por décadas. Preservar esse ecossistema implica também atenção municipal e comunitária para atrair e formar novos praticantes.
| Elemento | Dado |
|---|---|
| Idade de Ângela Granja | 64 anos |
| Início como costureira | 22 anos |
| Associações que desfilam | 24 |
Para os vareiros, isto significa que a próxima edição do Carnaval continuará a depender da experiência de oficinas e artesãos locais. A preservação desse saber-fazer, e a sua transmissão a novas gerações, será decisiva para que a festa mantenha as características que a tornaram referência nacional.