Cultura

Avaliação ao EPAC aponta fraca adesão, burocracia e falhas na proteção social

Um grupo de trabalho coordenado pela IGAC concluiu que o Estatuto dos Profissionais da Área da Cultura precisa de simplificação administrativa, melhor comunicação e maior coordenação institucional, depois de sinais claros de baixa adesão e de muitos pedidos de apoio social indeferidos.

Avaliação ao EPAC aponta fraca adesão, burocracia e falhas na proteção social
©Ilustração IA Inês Almeida / propagandistasocial.com

O relatório provisório do grupo de trabalho encarregue de avaliar o Estatuto dos Profissionais da Área da Cultura (EPAC) traça um retrato crítico da aplicação da lei: quase cinco anos após a entrada em vigor, a adesão dos trabalhadores permanece reduzida e a execução prática enfrenta entraves que comprometem a eficácia das medidas previstas.

Dados e sinais de alerta

Na apresentação pública realizada no Centro Cultural de Belém, em Lisboa, a subinspetora da Inspeção-Geral das Atividades Culturais (IGAC), Sara Medina, destacou que o registo obrigatório para aceder aos benefícios do estatuto não atingiu uma massa crítica de inscritos. Em 2026 havia 4.393 trabalhadores registados, dos quais apenas 2.084 mantinham o registo ativo. Para efeito de comparação, em 2022 o total de registos contabilizados (ativos ou cancelados) foi de 2.768.

Os números relativos aos pedidos do subsídio de suspensão de atividade — o mecanismo que corresponde ao subsídio de desemprego para estes profissionais — são igualmente reveladores. Em 2026 chegaram à Segurança Social 150 pedidos e apenas 39 foram aprovados. O relatório indica ainda que foram analisados 291 processos em 2025, 1.125 em 2024 e 4.085 em 2023, com a esmagadora maioria dos requerimentos a ser indeferida.

Problemas de implementação e propostas de mudança

O grupo de trabalho, presidido pela IGAC e integrado por representantes de várias entidades públicas ligadas à cultura, identificou como causas principais do insucesso a excessiva burocracia, a falta de comunicação e carências na coordenação institucional. O diagnóstico conduz a recomendações claras: simplificação administrativa, revisão do regime contributivo e de proteção social, aposta em melhor comunicação e monitorização contínua.

"continua reduzida"

A citação transcrita reflecte a avaliação sobre a adesão ao registo profissional e sublinha a necessidade de medidas que tornem o estatuto mais acessível e compreensível para quem trabalha na área cultural.

  • Simplificar os procedimentos de registo e acesso aos direitos;
  • Reforçar a coordenação entre instituições estatais responsáveis pela cultura;
  • Rever o regime de protecção social para reduzir taxas de indeferimento dos pedidos.

Implicações para o sector cultural

Os números e as conclusões do grupo de trabalho têm consequências práticas: muitos profissionais podem ficar sem acesso a apoios essenciais precisamente porque o mecanismo criado para os proteger não está a funcionar na prática. Além disso, a fraca adesão e os processos indeferidos fragilizam a credibilidade do EPAC enquanto instrumento de política pública para a cultura.

As recomendações do relatório apontam para uma revisão do estatuto, com políticas que vão além de meros ajustamentos técnicos — exigem uma reformulação da comunicação institucional para que os profissionais percebam como e quando podem aceder a direitos, bem como uma reorganização dos fluxos administrativos entre organismos públicos.

Ano Registos (totais) Registos activos Processos analisados Pedidos em 2026 Aprovados em 2026
2022 2.768 — — — —
2023 — — 4.085 — —
2024 — — 1.125 — —
2025 — — 291 — —
2026 4.393 2.084 — 150 39

O relatório abre caminho a um processo de revisão que o Governo e o Ministério da Cultura terão de materializar se pretendem que o EPAC cumpra a função para que foi criado: proteger profissionais culturais com regimes adaptados às realidades laborais do sector. Sem ajustes substanciais, o risco é manter um instrumento legal que, na prática, deixa muitos dos seus potenciais beneficiários sem cobertura efectiva.

Inês Almeida
Inês IA Jornalista de Cultura online

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