Escavação em curso junto à Foz do Rio Sizandro
Desde o início de junho que uma equipa do Centro de Investigação em Paleobiologia e Paleoecologia (Ci2Paleo), ligado à Sociedade de História Natural (SHN), realiza trabalhos de escavação em arribas do concelho de Torres Vedras. A intervenção decorre no local onde, em junho de 2025, Luís Domingos identificou parte de um fémur que sobressaía da arriba durante operações de prospeção e inventariação para o Sistema de Informação Geográfico Aplicado à Paleontologia.
Os trabalhos de diagnóstico permitiram recuperar o osso, que se encontrava em risco de queda, e, nas intervenções subsequentes, foram identificados mais vestígios que têm revelado um conjunto de fósseis em estado de conservação descrito pela equipa como "excecional".
Identificação e importância estratigráfica
Na campanha de verão foram recolhidos cerca de 45 osteodermes, placas ósseas típicas do grupo Anquilossauria. Segundo Bruno Camilo, diretor do Ci2Paleo e doutorando no Centro de Recursos Naturais e Ambiente do Instituto Superior Técnico, a combinação da presença do fémur com os osteodermes permitiu identificar o animal como pertencente a este grupo de dinossauros pouco frequentes nos registos portugueses.
"Trata-se de um animal invulgar devido à sua raridade"
O investigador sublinha ainda a relevância temporal do achado: enquanto os fósseis conhecidos de anquilossauros na Europa são, regra geral, mais recentes e datam do Titoniano, o exemplar de Torres Vedras provém de uma unidade estratigráfica do Kimmeridgiano, o que o torna, segundo a equipa, o mais antigo conhecido da Europa continental.
Proteção do sítio e prosseguimento das escavações
De modo a preservar os vestígios face à erosão e às condições meteorológicas, o sítio foi objecto de medidas de protecção durante o inverno, sendo a escavação retomada no verão. A equipa tem vindo a desenvolver estudos in situ para documentar a posição e o contexto dos fósseis antes da extracção sistemática.
- Local: arriba junto à Foz do Rio Sizandro, Torres Vedras
- Instituições: Ci2Paleo / Sociedade de História Natural
- Descoberta inicial: junho de 2025 (fémur identificado por Luís Domingos)
- Vestígios recolhidos: cerca de 45 osteodermes
- Estratigrafia: unidade do Kimmeridgiano
Além do interesse científico, a descoberta coloca Torres Vedras no mapa de investigação paleontológica nacional e europeia. O elevado grau de conservação e a antiguidade estratigráfica potenciam publicações científicas e poderão, a médio prazo, abrir oportunidades de divulgação local — desde exposições a visitas de estudo — que exigirão planeamento para conciliar a protecção do sítio com iniciativas de divulgação.
| Parâmetro | Dados |
|---|---|
| Data da descoberta inicial | Junho de 2025 |
| Elementos recuperados | ~45 osteodermes e um fémur parcial |
| Grupo identificado | Anquilossauria |
| Idade estratigráfica | Kimmeridgiano (mais antigo que os achados titonianos) |
Para os residentes de Torres Vedras, a notícia traduz-se numa oportunidade local de valorização do património natural e científico. A continuidade dos estudos dependerá de recursos técnicos e de medidas de conservação no terreno, bem como da calendarização de campanhas de escavação que respeitem as condicionantes ambientais e de segurança das arribas.
O desfecho das investigações e a eventual classificação ou musealização dos materiais recuperados serão acompanhados de perto pela comunidade científica e pelas estruturas culturais e educativas locais, que poderão vir a integrar este achado nas actividades de divulgação do património natural do concelho.