Investigação local com potencial impacto clínico e ambiental
Um trabalho desenvolvido na Universidade de Aveiro sugere que a casca do maracujá‑roxo, subproduto da indústria alimentar, pode contribuir como coadjuvante nutricional no controlo da asma. O estudo, já disponível online e com publicação prevista para 1 de Setembro na revista Food Research International, avaliou o efeito da inclusão de pó da casca na alimentação e não registou efeitos adversos nos parâmetros de segurança analisados.
Os resultados apontam para uma ação multifacetada: aumento da resposta antioxidante do organismo, redução de marcadores de inflamação nas vias respiratórias e diminuição de proteínas associadas a reações alérgicas. Esta combinação explica o interesse dos autores na utilização do subproduto como um complemento nutricional que, além de potenciais benefícios para doentes asmáticos, permite valorização sustentável de resíduos da indústria alimentar local.
“Os resultados apontam, assim, para o potencial da casca de maracujá‑roxo enquanto coadjuvante nutricional no apoio ao controlo da asma, contribuindo simultaneamente para a valorização sustentável de um subproduto da indústria alimentar.”
Os investigadores identificaram alterações relevantes nos seguintes parâmetros:
- Fortalecimento de mecanismos de proteção antioxidante;
- Redução dos níveis de imunoglobulina E (IgE) associados a respostas alérgicas;
- Diminuição de moléculas inflamatórias e menor presença de células inflamatórias no tecido pulmonar.
| Parâmetro avaliado | Efeito observado |
|---|---|
| Defesa antioxidante | Aumento significativo em concentrações mais elevadas testadas |
| Níveis de IgE | Redução |
| Marcadores inflamatórios nas vias respiratórias | Redução e menor infiltração celular pulmonar |
| Segurança | Sem efeitos adversos nos parâmetros avaliados |
Os autores propõem que os efeitos resultem da ação combinada dos compostos bioativos presentes na casca e do seu elevado teor de fibra, cuja interação com a microbiota intestinal poderá modular a resposta imunitária nos pulmões. Importa, porém, sublinhar a advertência dos próprios investigadores: esta estratégia não substitui os tratamentos farmacológicos convencionais da asma.
Para a comunidade de Aveiro, a investigação traz duas mensagens práticas. Primeiro, reforça o papel da Universidade de Aveiro como centro gerador de conhecimento com aplicação local e potencial translacional. Segundo, abre caminho a iniciativas que associem saúde pública e economia circular, nomeadamente projetos de aproveitamento industrial de subprodutos alimentares produzidos na região.
Os autores reconhecem a necessidade de estudos adicionais para confirmar a eficácia clínica em humanos e para determinar doses, formulações e eventuais interações com terapêutica existente. Até lá, os resultados constituem uma base promissora, mas preliminar, para novas abordagens nutricionais de apoio a doentes asmáticos.
Para utentes, profissionais de saúde e empresas locais, a investigação é um alerta: a valorização de resíduos alimentares pode ser simultaneamente uma oportunidade de inovação e uma via para contribuir para a saúde respiratória da população, desde que acompanhada de investigação clínica rigorosa.