Ao finalizar a reunião do Secretariado Regional de Lisboa da União das Misericórdias Portuguesas, realizada no dia 9 de julho na Santa Casa da Misericórdia do Cadaval, o Patriarca de Lisboa, D. Rui Valério, centrou a sua intervenção na relação entre a recente encíclica papal "Magnifica humanitas", a Doutrina Social da Igreja e os desafios colocados pela Inteligência Artificial (IA).
Dirigindo-se aos representantes das 23 Misericórdias presentes, o Patriarca sublinhou que a questão não é apenas até onde a tecnologia pode chegar, mas sobretudo que tipo de sociedade e que tipo de pessoas se está a formar. A mensagem incidiu sobre a necessidade de colocar a consciência ética no centro das decisões, em especial por parte das instituições que trabalham diretamente com os segmentos mais vulneráveis da população.
"Que humanidade estamos a construir?"
D. Rui Valério lembrou que as revoluções industriais anteriores alteraram não só instrumentos, mas também a forma como o ser humano se percebe e se relaciona com o mundo. No caso da IA, destacou que capacidades tradicionalmente humanas — aprender, memorizar, comparar, interpretar e produzir conteúdos — podem agora ser parcial ou totalmente realizadas por sistemas que processam grandes volumes de informação em segundos. Isso, afirmou, tem implicações concretas para o trabalho das Misericórdias.
O Patriarca enumerou exemplos concretos de onde as grandes transformações sociais se materializam: o idoso que precisa de companhia, a criança que necessita de proteção, a pessoa com deficiência que procura autonomia, a família em dificuldades, o doente que pede cuidados e o pobre que pretende ser reconhecido como pessoa. A intervenção sublinhou a missão específica das Misericórdias no contacto direto com estas realidades.
Impacto prático para as Misericórdias
A mensagem implicita é que as instituições de solidariedade devem integrar a reflexão ética sobre tecnologia nas suas práticas de cuidados e nas suas políticas internas. Isso passa por avaliar não só a eficiência de soluções digitais, mas também o efeito nas relações humanas, na autonomia das pessoas e no reconhecimento da dignidade de quem recebe apoio.
Para facilitar a leitura das áreas mencionadas pelo Patriarca, apresenta-se de seguida um quadro resumo e uma lista de prioridades mencionadas na intervenção.
| Grupo | Exemplo citado |
|---|---|
| Idosos | Necessidade de companhia |
| Crianças | Proteção |
| Pessoas com deficiência | Busca de autonomia |
| Famílias | Períodos de dificuldade |
| Doentes | Pedido de cuidados |
| Pobres | Reconhecimento como pessoa |
- Colocar a dignidade humana no centro das decisões tecnológicas e institucionais;
- Avaliar impactos sociais das soluções digitais na relação entre cuidados e utentes;
- Fortalecer a missão das Misericórdias como espaços onde as mudanças sociais se tornam concretas.
A intervenção de D. Rui Valério articula um enquadramento teológico e social com questões práticas que interessam às Misericórdias do distrito de Lisboa: como adotar tecnologias sem retirar protagonismo e reconhecimento às pessoas que servem. Num momento em que a IA redefine papéis e competências, o apelo foi claro para que as instituições locais assumam uma reflexão ética e uma prática orientada para a promoção da pessoa humana.