A organização portuguesa Assistência Médica Internacional (AMI) reportou a identificação de uma comunidade de portugueses e luso‑venezuelanos em La Guaira que enfrenta necessidades económicas e carece de apoio em saúde mental depois do duplo sismo de junho na Venezuela. O diagnóstico foi feito durante uma ação promovida pela Embaixada de Portugal em Caracas, em Naiguatá.
Intervenção rápida e foco na saúde psicológica
Segundo o coordenador de projetos e representante da AMI no terreno, Daniel Viegas Rocha, a equipa chegou à Venezuela a 9 de julho para mapear carências e, em menos de uma semana, lançou um projeto de saúde mental e suporte psicossocial. A resposta privilegiou tanto necessidades económicas imediatas como cuidados psicológicos, numa zona apontada como a mais afetada pelo tremor.
"Há uma comunidade portuguesa, e luso‑venezuelana, com muitas necessidades económicas e de apoio financeiro, mas também de suporte de saúde mental"
Rocha salientou a abertura das pessoas a dialogar com psicólogos, o que tem permitido à equipa ganhar confiança e garantir acolhimento dos serviços oferecidos. A intervenção assenta, por isso, tanto em apoio direto quanto em criação de confiança para adesão aos cuidados.
Traumas acumulados e vulnerabilidades sociais
O coordenador recordou que o sismo se soma a traumas anteriores: muitos elementos da comunidade sofreram com as cheias de 1999, o que cria um quadro de sofrimento acumulado e vulnerabilidade. Esta história clínica coletiva torna mais difícil a recuperação e aumenta a necessidade de intervenção continuada, não apenas pontual.
Perceções de pertença e isolamento
Entre os relatos recolhidos pela AMI há também experiências de pertença ambivalente: alguns luso‑venezuelanos dizem sentir‑se parcialmente venezuelanos e, por vezes, não completamente portugueses, o que os pode deixar num limbo quanto ao acesso a apoios formais. Essa sensação de não pertencer plenamente a nenhum dos lados contribui para o sentimento de desamparo.
- Data de chegada da AMI: 9 de julho
- Zona afetada: La Guaira (Naiguatá)
- Áreas prioritárias identificadas: apoio económico e saúde mental/psicossocial
| Elemento | Detalhe |
|---|---|
| Organização | Assistência Médica Internacional (AMI) |
| Coordenador no terreno | Daniel Viegas Rocha |
| Intervenção | Projeto de saúde mental e suporte psicossocial |
As conclusões da AMI sublinham a necessidade de articulação entre organizações não governamentais, Embaixada de Portugal e possíveis parceiros locais para garantir continuidade no apoio — tanto para cobrir carências económicas como para assegurar acompanhamento psicológico a médio prazo. O quadro descrito aponta para intervenções integradas, que considerem o historial de traumas e as barreiras subjetivas ao recurso a apoios formais.
Face ao exposto, a resposta deverá equilibrar assistência imediata com programas de recuperação psicossocial sustentados no tempo, bem como estratégias para identificar e incluir famílias em situação de dupla vulnerabilidade: perda material e fragilidade emocional.