Paulo Furtado assina banda sonora de 'Playback' e preserva a componente pop de Carlos Paião
No âmbito do festival NOS Alive, no Passeio Marítimo de Algés, o músico Paulo Furtado — conhecido como The Legendary Tigerman — detalhou a sua intervenção nas canções de Carlos Paião para a banda sonora do filme "Playback". O trabalho procura conciliar fidelidade ao universo pop do cantor com uma costura sonora mais densa, própria da experiência cinematográfica.
Furtado explicou que abordou o repertório de Paião em dupla perspetiva: por um lado, "na ótica da banda sonora" e, por outro, sem retirar «uma certa componente de pop», que considera intrínseca às canções originais. A opção resultou de um equilíbrio entre respeito pela matéria-prima e vontade de explorar novas camadas tímbricas.
"Se o fizesse [tirar a componente pop] acho que estava a fazer um mau trabalho, acho que não iria ser correto, mas fui acrescentando umas camadas que quase não se percebe, mas que são camadas muito densas por baixo daquela pop mais `bubblegum`"
O compositor admitiu que, por ser sobretudo um músico de rock, não seria a escolha óbvia para um projeto centrado num artista de pop, mas que o convite teve em conta o seu percurso recente em bandas sonoras cinematográficas. A partir dessa experiência, Furtado procurou conduzir as músicas para "outros sítios" sem as transformar completamente.
Alguns elementos estéticos referidos pelo músico ajudam a clarificar a direção criativa adotada:
- manutenção da componente pop original;
- inserção de camadas sonoras densas e subtis por baixo das melodias;
- referências a sonoridades que evocam Leonard Cohen (anos 1980) e paisagens sonoras próximas de David Lynch e Twin Peaks;
- colaboração com a cantora Sara Badalo, que complementa o registo com linhas vocais específicas.
Furtado comparou o método de trabalho a produzir um disco de Paião com o próprio artista, tal como fez anteriormente com os Expresso Transatlântico. A ideia foi sempre a de "respeitar o que o artista é" e, simultaneamente, «introduzir elementos que poderiam levar a música dele para outros sítios».
| Elemento | Referência |
|---|---|
| Músico | Paulo Furtado (The Legendary Tigerman) |
| Filme | Playback (sobre Carlos Paião) |
| Evento | NOS Alive, Passeio Marítimo de Algés |
| Colaboração vocal | Sara Badalo |
Além da dimensão de homenagem, o projeto sublinha uma discussão mais ampla sobre o lugar da reinterpretação artística: como preservar traços identitários de um repertório reconhecível e, ao mesmo tempo, inseri-lo num registo contemporâneo que dialogue com a narrativa cinematográfica. A aposta de Furtado em densificar o fundo sonoro sem apagar a superfície pop pretende responder a essa tensão, garantindo que a memória de Paião seja reconhecível e simultaneamente recontextualizada para o écrã.
O anúncio e a apresentação no NOS Alive colocam o projeto em evidência nacional, abrindo expectativas sobre a receção do filme e da respetiva banda sonora por públicos diversos: fãs de Paião, espectadores de cinema e o público festivaleiro que testemunhou a explicação do músico.