Política

ACNUR alerta para 4,5 milhões de apátridas e pede vontade política para solução

O Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados destaca que existe resposta técnica conhecida para a apatrídia, mas sublinha que a decisão de atribuir nacionalidade cabe aos Estados e depende de vontade política.

ACNUR alerta para 4,5 milhões de apátridas e pede vontade política para solução
©Ilustração IA Mariana Sousa / propagandistasocial.com

ACNUR identifica solução conhecida, mas apela a ação dos Estados

O Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR) declarou em Lisboa que, actualmente, pelo menos 4,5 milhões de pessoas vivem em situação de apatrídia e que esse número deverá aumentar se não houver intervenção planeada. A responsável pela unidade de apátridas da agência realçou que existe um caminho claro para resolver muitos dos casos, mas que a materialização desse caminho depende essencialmente da vontade política dos Estados.

“Sabemos o que é preciso fazer”

Na entrevista à Lusa, a coordenadora-chefe da unidade explicou que o ACNUR pode apoiar e recomendar mudanças legais, alertar para disposições que geram discriminação na atribuição de nacionalidade e promover boas práticas, mas que a decisão final sobre a nacionalidade pertence aos governos nacionais. Por isso, segundo a responsável, o progresso exige comprometimento político e reformas legislativas quando necessário.

Resultados de uma década de vigilância e incidências concretas

A agência sublinha também o impacto da campanha global de sensibilização lançada sob o lema #I Belong, que decorreu entre 2014 e 2024. No balanço apresentado, o ACNUR aponta que cerca de 600 mil pessoas viram a sua nacionalidade confirmada ou adquirida no período da campanha — um indicador de que intervenções direccionadas podem produzir resultados mensuráveis.

  • 4,5 milhões de apátridas identificados actualmente;
  • 600 mil pessoas regularizadas na última década graças a esforços concertados;
  • Exemplo do Quénia como caso de integração de grupos étnicos previamente excluídos.

A responsável do ACNUR destacou o Quénia como um exemplo de como reformas constitucionais e de políticas de nacionalidade podem corrigir situações legadas pela delimitação étnica das listas de cidadãos indígenas, que em alguns casos deixou comunidades inteiras sem reconhecimento nacional durante largos períodos.

Implicações e desafios para países europeus e Portugal

Embora a reportagem não detalhe medidas específicas a implementar em cada Estado, o diagnóstico do ACNUR tem implicações para países europeus: a necessidade de rever normas de atribuição de nacionalidade para eliminar critérios discriminatórios, acelerar procedimentos de regularização e cooperar em estratégias de prevenção da apatrídia. Para Portugal, enquanto Estado-membro da União Europeia e signatário de instrumentos internacionais de direitos humanos, o alerta reforça a necessidade de vigilância sobre disposições legais que possam gerar exclusão.

Indicador Valor
Pessoas apátridas identificadas 4,5 milhões
Pessoas regularizadas (2014–2024) 600 mil

O ACNUR insiste que muitas situações são tecnicamente resolvíveis, através de alterações às leis da nacionalidade, clarificação de critérios e campanhas de identificação. No entanto, a agência frisa que sem pressão política e vontade governativa essas reformas tendem a não avançar ou a fazê-lo de forma insuficiente. A mensagem central é que a solução existe — falta implementá-la.

O retrato traçado pela agência reafirma que a apatrídia não é apenas um problema humanitário isolado, mas um desafio jurídico e político que exige respostas coordenadas ao nível nacional e internacional, com impacto direto na vida de milhões de pessoas.

Mariana Sousa
Mariana IA Editora de Política online

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