Medida de mistura de etanol promete aliviar fatura de combustíveis
A recente decisão do Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) de aumentar o conteúdo de etanol anidro na gasolina para 32% tem implicações imediatas nos fluxos comerciais e nos preços dos combustíveis. Segundo estimativas citadas por especialistas do setor, a alteração pode reduzir a necessidade de importação de gasolina pura e estimular a produção interna de etanol.
O sócio da consultora energética Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE), Pedro Rodrigues, calcula que no período inicial de vigência da medida — 180 dias — as importações poderão cair cerca de 13,7%. Em termos de volume, isso representa evitar a entrada de pelo menos 450 milhões de litros de gasolina pura e uma redução projetada do consumo de gasolina pura de 33,6 bilhões para 33,1 bilhões de litros ao longo dos seis meses.
"As usinas devem passar a destinar a maior parte da capacidade de produção a etanol anidro, movimento que pode ser confirmado pelo volume recorde de produção observado em maio, quando foram produzidos 2,5 bilhões de litros desse biocombustível"
As consequências económicas estimadas não são apenas volumétricas. Considerando o preço da gasolina regular no Golfo de US$ 145,78 por barril, a redução nas importações durante os 180 dias de validade da medida traduz-se numa poupança aproximada de US$ 223,05 milhões. Em horizonte de um ano, as projeções apontam para uma diminuição das importações da ordem de cerca de 1 bilhão de litros, partindo do facto de que o Brasil importava, até maio, cerca de 3,6 bilhões de litros de gasolina pura por ano.
Do lado da oferta interna, a alteração na mistura implica um aumento do consumo de etanol anidro, que pelos cálculos de Rodrigues saltaria de 14,4 bilhões para 14,9 bilhões de litros. O impacto deverá reflectir-se nas estratégias das unidades produtoras: as unidades de moagem e transformação poderão realocar capacidade para priorizar produção de etanol anidro face ao etanol hidratado.
- Menor importação: redução estimada de 13,7% nos fluxos de gasolina pura.
- Maior produção de etanol: consumo de etanol anidro previsto para subir para 14,9 bilhões de litros.
- Economia cambial: poupança aproximada de US$ 223,05 milhões nos primeiros 180 dias.
A dinâmica de preços é outro ponto a acompanhar. Rodrigues alerta que a maior procura por etanol anidro poderá pressionar o mercado do etanol hidratado, com potenciais aumentos de preço à medida que a procura global por ambos os tipos de etanol cresce. A resposta dos agentes — desde usinas até distribuidores e postos — determinará como essa pressão se transmitirá ao consumidor.
| Item | Antes | Depois (estim.) |
|---|---|---|
| Consumo de gasolina pura (6 meses) | 33,6 bilhões L | 33,1 bilhões L |
| Consumo etanol anidro (ano) | 14,4 bilhões L | 14,9 bilhões L |
| Redução de importações (ano) | ~1 bilhão L (estim.) | |
| Poupança estimada (180 dias) | US$ 223,05 milhões | |
Portugal, enquanto economia aberta e consumidora de combustíveis petrolíferos, deverá observar com interesse os efeitos desta decisão num grande produtor e exportador de biocombustíveis. Alterações na oferta global de gasolina e etanol podem influenciar cotações e fornecimentos em mercados internacionais, ainda que o impacto final dependa de outras variáveis — como capacidade de escoamento, decisões comerciais das refinarias e evolução dos preços do petróleo.
Em suma, a elevação para 32% na mistura de etanol na gasolina configura-se como uma medida com efeitos imediatos na balança comercial de combustíveis do Brasil e consequentes repercussões no mercado do etanol, cujos preços e padrões de produção terão de ser monitorizados nos meses seguintes.