Relatório do BIS destaca tensões entre investimento em IA e objectivos da política monetária
O Banco de Compensações Internacionais (BIS) publicou um relatório que salienta como o rápido aumento dos gastos em inteligência artificial está a alterar a dinâmica entre demanda e oferta, complicando a leitura das condições económicas pelas autoridades monetárias. A instituição sublinha que os grandes investimentos em infraestruturas tecnológicas estão a ser, em larga medida, financiados por dívida, o que acentua riscos para os mercados e para a estabilidade financeira.
Um boom de investimento com efeitos ambíguos
Segundo o BIS, os desembolsos relacionados com IA — que incluem data centers, semicondutores e outras infraestruturas — já representam uma parcela relevante da economia em algumas jurisdições e poderão crescer substancialmente nos próximos anos. Estes fluxos podem simultaneamente pressionar a inflação, ao estimular a procura, e aumentar a capacidade produtiva, caso os ganhos de produtividade se concretizem, o que tenderia a conter os preços.
“Os ganhos de produtividade decorrentes da IA, embora potencialmente expressivos, permanecem incertos e desiguais, tanto entre setores quanto entre países”
O BIS chama atenção para a incerteza quanto ao momento e à intensidade desses efeitos: se os bancos centrais superestimarem as melhorias de oferta podem manter políticas excessivamente expansionistas; no cenário inverso, podem aplicar medidas restritivas desnecessárias.
Consequências para a política monetária e para o sistema financeiro
- Sinais cíclicos difusos: a simultânea alteração da procura e da oferta dificulta a avaliação das condições subjacentes da economia;
- Financiamento via dívida: o recurso massivo a mercados de dívida pública e crédito privado para sustentar investimentos amplia a exposição financeira;
- Risco de desajustes: divergências na avaliação dos ganhos de produtividade podem conduzir a erros de calibração das taxas de juro pelos bancos centrais;
- Efeitos laborais: a potencial perda de empregos em alguns sectores pode reduzir salários e pressão inflacionista, adicionando complexidade ao quadro de decisão.
O relatório quantifica tendências de investimento: hoje estima-se um montante aproximado de US$ 500 mil milhões em gastos relacionados com IA, com expectativas de crescimento para um intervalo entre US$ 3 e 4 biliões até 2030, e antecipa que os investimentos em data centers possam triplicar até essa data.
| Indicador | Valor actual | Projeção até 2030 |
|---|---|---|
| Investimentos em IA (global) | US$ 500 mil milhões | US$ 3–4 biliões |
| Investimento em data centers | — | Triplicação prevista |
Implicações para Portugal
Para o contexto nacional, as conclusões do BIS são relevantes por várias vias: condicionam as escolhas do Banco de Portugal e do BCE ao definir taxas de juro; alteram as necessidades de regulação e supervisão financeira perante maior endividamento para financiar activos ligados à IA; e colocam um desafio às políticas de emprego e formação profissional face aos potenciais efeitos setoriais sobre o mercado de trabalho.
Em suma, o relatório do BIS aponta para um cenário em que os benefícios macroeconómicos da IA são plausíveis, mas incertos na distribuição e no tempo, enquanto os riscos associados ao financiamento e à correcta leitura dos sinais económicos exigem atenção redobrada por parte das autoridades monetárias e regulatórias.