Luísa Santiago, à frente da representação latino-americana da Fundação Ellen MacArthur, lançou um alerta sobre a necessidade de maior ambição do Brasil na transição para a economia circular. Para a gestora, o país continua preso a um modelo económico baseado em extrair, produzir e descartar, quando o desafio contemporâneo exige sistemas produtivos que mantenham materiais em circulação e potenciem a regeneração dos recursos naturais.
Formada em jornalismo, Santiago converteu-se à gestão ambiental após uma experiência profissional que a levou a trabalhar em áreas como petróleo, gás e mineração, incluindo atuação na Amazónia. Essa vivência culminou numa frustração profissional que a aproximou dos princípios circulares, nos quais encontrou uma resposta para a insuficiência das medidas de mitigação que via nas empresas.
"Comecei a ter uma certa frustração. Eu entrava nas empresas e trabalhava com áreas que não mudavam a forma de fazer as coisas."
A explicação de Santiago sobre a economia circular sublinha três pilares: produção sem resíduos, manutenção de materiais em circulação (tanto como produto como matéria‑prima) e a regeneração da natureza. No seu percurso académico e profissional, destaca‑se por ter escrito a primeira dissertação de mestrado sobre o tema na América Latina e por ter contribuído para a Estratégia Nacional de Economia Circular do Brasil.
Setores prioritários e medidas necessárias
No discurso de Santiago, sectores como o dos plásticos e da moda surgem como prioritários para a implementação de modelos circulares. A sua intervenção combina advocacy, produção de conhecimento e eventos para mobilizar empresas e decisores políticos, procurando deslocar a agenda de mera mitigação para transformações na lógica do negócio.
- Plásticos: reduzir desperdício e promover reutilização e reciclagem em cadeias produtivas.
- Moda: prolongar vida útil dos produtos e reinserir materiais em novos ciclos produtivos.
- Política pública: tradução da estratégia nacional em medidas regulatórias e incentivos.
O trabalho de Santiago inclui iniciativas de divulgação e formação, integradas em eventos da própria Fundação Ellen MacArthur, que procuram estimular uma agenda de mudança sistémica no tecido empresarial. A aposta passa por conseguir que os decisores económicos e os CEOs assumam compromissos claros com a reconstrução de processos produtivos.
| Iniciativa | Descrição |
|---|---|
| Dissertação de mestrado | Primeira dissertação sobre economia circular na América Latina. |
| Contribuição estratégica | Participação na elaboração da Estratégia Nacional de Economia Circular do Brasil. |
| Eventos e divulgação | Organização de eventos ligados à Fundação Ellen MacArthur para promover práticas circulares. |
Para além do apelo técnico, a mensagem de Santiago tem uma dimensão política: sem uma mudança de escala e de ambição, o Brasil corre o risco de perpetuar externalidades ambientais e de perder oportunidades económicas associadas à inovação circular. A adoção de políticas que incentivem desenho para a reutilização, cadeias de valor regenerativas e mecanismos de financiamento específicos pode determinar se a transição será gradual ou transformadora.
Num momento em que a sustentabilidade ganha centralidade nas decisões empresariais e regulatórias em todo o mundo, a experiência de atores como a Fundação Ellen MacArthur sublinha a necessidade de alinhamento entre conhecimento, políticas e mercado para que a economia circular deixe de ser um conceito e passe a ser prática corrente.