Economia

Calor extremo pode cortar crescimento da UE e causar perdas de €180 mil milhões em 2026

Uma análise do Triodos Bank aponta para perdas de cerca de €180 mil milhões na União Europeia em 2026 devido a ondas de calor e seca, com impacto forte na produtividade laboral, na agricultura e no transporte fluvial — riscos que também se refletem na economia portuguesa.

Calor extremo pode cortar crescimento da UE e causar perdas de €180 mil milhões em 2026
©Ilustração IA Tiago Marques / propagandistasocial.com

O custo do calor: dimensão e canais de transmissão

Uma avaliação do Triodos Bank estima que o fenómeno de calor extremo e a seca em 2026 podem provocar perdas na ordem dos €180 mil milhões para a União Europeia, o equivalente a aproximadamente 1% do PIB comunitário e à totalidade do crescimento económico esperado para este ano. O relatório identifica três canais principais de perturbação: perda de produtividade laboral, quedas na produção agrícola e constrangimentos nos transportes, em particular a navegação fluvial.

Impactos por sector e por país

Segundo a análise, a maior fatia do efeito negativo advém da redução da produtividade no trabalho — estimada em cerca de 0,6 pontos percentuais do PIB na União Europeia — que resulta da exposição de trabalhadores a condições térmicas adversas e da necessidade de medidas de protecção e adaptação nos locais de trabalho.

A agricultura é outro sector vulnerável: a produção agrícola poderá cair entre 3% e 7% em função da intensidade e duração da seca, com consequências directas para os preços e a segurança alimentar em vários Estados‑membros. Exemplos pontuais incluídos no levantamento referem perdas estimadas de cerca de €1 mil milhão na Áustria relacionadas com a produção agrícola.

Exemplos nacionais e logísticos na UE

O relatório destaca ainda efeitos específicos em economias de grande dimensão: a França poderá registar uma perda de 1,4 pontos percentuais no crescimento esperado e entrar em contração, com um cenário de até -0,6% do PIB. Nos Países Baixos, um impacto de 0,8 pontos percentuais ameaça eliminar quase toda a expansão prevista para 2026. Em paralelo, os baixos caudais do Reno e do Danúbio já condicionaram a navegação e a produção energética em algumas regiões.

ItemEstimativa
Perdas totais na UE (2026)€180 mil milhões (~1% do PIB)
Perda por produtividade laboral0,6 pontos percentuais do PIB
Queda na produção agrícola3%–7%
França-0,6% do PIB (contração)
Países BaixosImpacto ~0,8 pontos percentuais
Áustria (prejuízos agrícolas)€1 mil milhão

Consequências para Portugal

Portugal, inserido numa economia europeia interligada, não fica imune a estes choques. A redução da oferta agrícola na UE pode pressionar os preços internos e a inflação alimentar, enquanto constrangimentos no transporte fluvial e energético nos nós logísticos continentais repercutem‑se nas cadeias de abastecimento das exportações portuguesas. Além disso, sectores com forte componente laboral ao ar livre — construção, agricultura e turismo — estão expostos a perdas de produtividade.

Medidas de mitigação e prioridades políticas

Perante um cenário que mistura choque climático e choque económico, as políticas públicas terão de articular resposta imediata e adaptação estrutural. Entre as medidas possíveis destacam‑se:

  • Planos de protecção dos trabalhadores e alteração de horários em actividades expostas ao calor;
  • Investimentos em infra‑estruturas hídricas e práticas agrícolas resilientes para reduzir vulnerabilidade da produção;
  • Reforço da gestão logística e diversificação de rotas para contornar limitações fluviais;
  • Políticas fiscais e monetárias coordenadas para atenuar choques de oferta que alimentem a inflação.

Risco económico permanente

O aviso do Triodos Bank sublinha que episódios extremos de calor deixam de ser meramente meteorológicos para se tornarem fatores determinantes do desempenho económico. Para a economia portuguesa, o desafio passa por integrar medidas de resiliência no curto prazo e acelerar transições que reduzam a exposição futura a estes choques climáticos.

Tiago Marques
Tiago IA Jornalista de Economia online

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