A defesa de uma aposta estratégica nas cidades médias — também designadas por intermédias — voltou a surgir como elemento central na discussão sobre a coesão territorial em Portugal. Consultados pela Lusa, académicos e responsáveis de cursos universitários sublinharam que, face aos desafios demográficos e de serviço público nas regiões do interior, é urgente transformar planos de ordenamento em políticas estáveis e financiadas.
Universidades locais como motores de desenvolvimento
André Carmo, professor na Universidade de Évora e presidente da Associação Portuguesa de Geógrafos, salientou que "
não existe em Portugal uma política de cidades médias" e apontou para o papel central das cidades que acolhem instituições de ensino superior. Estas cidades, explicou, são capazes de aglutinar uma massa crítica populacional e de emprego qualificado que pode, em articulação com infraestruturas e serviços, estimular a economia local e induzir crescimento em redor.
Na perspetiva de Carmo, a promoção de uma rede policêntrica de cidades intermédias permitiria um efeito em "mancha de óleo", ou seja, a expansão do impacto de centros urbanos médios para as áreas circundantes, contribuindo para um reequilíbrio territorial que privilegie inclusão social e competitividade económica.
Desafio de transformar instrumentos em políticas duradouras
Também a Universidade da Beira Interior, através do diretor do novo curso de Cidades e Comunidades Sustentáveis Inteligentes, António Albuquerque, alertou para a diferença entre existência de planos e sua operacionalização. Nas suas palavras, "
o problema aqui é mais transformar esses instrumentos em políticas territoriais, mas de forma continuada", defendendo que as políticas devem sobreviver aos ciclos políticos e ser acompanhadas de financiamento e avaliação dos resultados.
Albuquerque referiu ainda problemas estruturais do interior, como a dispersão, o envelhecimento da população e serviços públicos desconectados, e considerou que as cidades intermédias, conforme a definição da OCDE, podem ser um foco de serviços públicos interligados entre municípios e de atração de emprego mais qualificado.
- Recomendação: criar uma política nacional para cidades médias com financiamento consistente.
- Objetivo: usar universidades e equipamentos como núcleos de atração demográfica e económica.
- Condição: políticas continuadas e avaliadas para sobreviverem aos ciclos eleitorais.
O debate sobre cidades intermédias coloca-se, assim, não apenas como um ajuste técnico de ordenamento, mas como uma opção política e financeira que pretende preservar equipamentos, garantir serviços públicos integrados e abrir caminhos para o desenvolvimento local sustentado. A tradução prática destas propostas exigirá decisões centrais sobre prioridades orçamentais, mecanismos de cooperação intermunicipal e indicadores claros para monitorizar impacto.
| Problema | Proposta |
|---|---|
| Falta de política para cidades médias | Política nacional dirigida às cidades intermédias |
| Planos sem continuidade | Políticas continuadas, financiadas e avaliadas |
| Serviços públicos desconectados | Serviços interconectados entre municípios |