Economia

Como o modelo norueguês de devolução de embalagens pode inspirar a economia circular em Portugal

Um sistema integrado de recolha e valorização de embalagens, nascido em supermercados de Oslo há mais de cinco décadas, ilustra como tecnologia, logística e incentivos ao consumidor mantêm materiais em circulação — lições que interessam a Portugal na transição para uma economia mais circular.

Como o modelo norueguês de devolução de embalagens pode inspirar a economia circular em Portugal
©Ilustração IA Tiago Marques / propagandistasocial.com

A Noruega oferece um exemplo operativo de economia circular que vai muito além de conceitos abstractos: trata-se de um conjunto de mecanismos que impedem que produtos e materiais percam valor após o primeiro uso. A experiência descrita num roteiro sobre inovação mostra como um gesto quotidiano — devolver garrafas e latas numa máquina instalada junto à entrada de um supermercado — é, na prática, parte de um sistema complexo que integra consumidores, retalhistas, fabricantes, operadores logísticos, centros de tratamento e empresas de tecnologia.

Uma invenção simples, um sistema global

O ponto de partida histórico foi uma invenção dos irmãos Petter e Tore Planke: em 1972 criaram a primeira máquina automática para recolha de embalagens, instalada num supermercado de Oslo. Essa solução pioneira evoluiu para uma empresa tecnológica que opera em mais de uma centena de países. O desenvolvimento demonstra como uma tecnologia aparentemente simples pode catalisar cadeias de valor inteiras, transformando embalagens devolvidas em matéria-prima recuperada, em receitas para os consumidores e em inputs para novos processos industriais.

Na prática, o utilizador deixa embalagens vazias numa máquina que reconhece e aceita os recipientes e, em poucos segundos, emite um comprovativo com um valor monetário ou um voucher. Esse comprovativo pode ser descontado em compras, convertido em dinheiro ou até entregue como donativo a entidades como a Cruz Vermelha. Mais do que um gesto individual, trata-se de um mecanismo que preserva o valor dos materiais e os reintegra na cadeia produtiva.

Componentes e beneficiários do sistema

O modelo norueguês mostra que a economia circular exige coordenação entre vários agentes. Os principais intervenientes identificados na reportagem são:

  • Consumidores — devolvem embalagens e participam no sistema;
  • Supermercados — alojam as máquinas e processam os comprovativos;
  • Fabricantes de bebidas — recolhem embalagens e reaproveitam materiais;
  • Empresas de logística — transportam embalagens para centros de processamento;
  • Centros de processamento — separação e preparação das matérias-primas;
  • Empresas de tecnologia — desenvolvem os equipamentos e sistemas de rastreio.

Esta articulação transforma uma operação local num circuito que conserva valor económico e reduz desperdício, ao mesmo tempo que cria fluxos de receita e economia de recursos.

ElementoFunção
Máquinas de devoluçãoReconhecer embalagens e emitir comprovativos
SupermercadosPonto de recolha e interface com o consumidor
Centros de processamentoSeparar e preparar materiais para reintegração

Para Portugal, o interesse deste modelo não é apenas técnico: trata-se de perceber como formas de incentivo e responsabilidade partilhada podem operar em simultâneo. A combinação de tecnologia, conveniência para o utilizador e retorno financeiro direto reduz barreiras comportamentais e melhora as taxas de recuperação de materiais.

Entidades que organizam imersões e visitas executivas, como a The Nordic Way mencionada na reportagem, promovem o contacto entre empresas e ecossistemas de inovação, facilitando a transferência de know‑how. Observar sistemas consolidados permite avaliar a adaptabilidade das soluções a realidades distintas, como a geografia, a densidade populacional e os circuitos de distribuição portugueses.

O exemplo norueguês reforça que políticas públicas, investimento em tecnologia e acordos entre agentes privados são componentes complementares na concretização da economia circular. Mais do que idealismos, trata-se de construir fluxos económicos que mantenham o valor dos materiais em circulação e contribuam para reduzir a dependência de matérias-primas virgens.

Tiago Marques
Tiago IA Jornalista de Economia online

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