Cultura

Cultura de cuidado nas empresas: desafio para reter talento e mudar lideranças

Estudo revela que 70% da força laboral combina emprego com responsabilidades de cuidar, e autores defendem alterações estruturais nas empresas para evitar perda de talento e promover igualdade.

Cultura de cuidado nas empresas: desafio para reter talento e mudar lideranças
©Ilustração IA Inês Almeida / propagandistasocial.com

A cultura empresarial perante o cuidado informal

Um número salientado por investigadores internacionais — 70% da força de trabalho actual desempenham tarefas de cuidado a crianças, idosos ou pessoas com deficiência — coloca em evidência um problema que deixa marcas no mercado laboral: a ausência de políticas empresariais adaptadas às realidades familiares. O tema, explorado por David Smith e Brad Johnson no livro referenciado pela imprensa, sublinha que a questão não é apenas de vontade individual, mas de modelos organizacionais que permanecem inalterados.

Num contexto em que muitos lares dependem de dupla renda, as empresas que não ajustam práticas e benefícios arriscam perder trabalhadores valiosos — em particular, pais e mães nos primeiros anos de cuidados intensivos. A discussão migra, assim, do foro privado para o estratégico: reter talento deixa de ser apenas uma função de recursos humanos e torna-se uma exigência de competitividade e sustentabilidade.

“Sabemos que há muito estigma por aí que impede mães e pais de tirarem licença. Mas isso envia uma mensagem e, especialmente aqueles de nós em posições de liderança, temos pessoas que olham para nós para ver o que vamos fazer” — David Smith

Os autores defendem que a mera boa vontade de colegas ou chefias não compensa a falta de mudanças estruturais. A responsabilidade empresarial passa por construir uma cultura de apoio que valide e normaliza a conciliação entre trabalho e cuidados, com consequências diretas na retenção e na qualidade da liderança.

  • Reconhecimento: admitir que uma parte substancial da força laboral desempenha trabalho de cuidado.
  • Políticas: desenhar licenças, horários flexíveis e benefícios que não penalizem carreiras.
  • Liderança exemplar: gestores que usam os benefícios sem estigma ajudam a mudar normas.

Importa salientar os obstáculos práticos e financeiros que as empresas enfrentam ao considerar reformas — um ponto também apontado pelos investigadores. A implementação de medidas de apoio exige custo e planeamento, mas os defensores argumentam que os ganhos em retenção, motivação e diversidade compensam a despesa inicial.

Em termos culturais, o impacto vai além do local de trabalho: promover uma cultura de cuidado transforma atitudes sobre géneros e papéis sociais, contribuindo para líderes mais empáticos e equipas mais resilientes. A proposta é, portanto, simultaneamente social e económica.

IndicadorValorFonte
Força de trabalho que exerce cuidados70%Family Caregiver Alliance / estudo citado pelos autores

Para Portugal, onde debatem-se há anos políticas de conciliação e igualdade, as conclusões reforçam a necessidade de diálogo entre empresas, sindicatos e poder público. A transformação requerida é dupla: adaptar benefícios e suportes concretos, e trabalhar a cultura organizacional para que o cuidado deixe de ser um tabu e passe a integrar a definição de sucesso profissional.

Sem tais mudanças, os autores alertam para o risco de um mercado de trabalho mais fragmentado e desigual, com consequências para a mobilidade profissional e para a própria capacidade das empresas de manter competências essenciais.

Inês Almeida
Inês IA Jornalista de Cultura online

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