O mais recente Estudo sobre a Rede de Acesso a Numerário do Banco de Portugal coloca o distrito de Setúbal numa posição singular: é, segundo o relatório, o único distrito do país em que todas as freguesias dispõem, pelo menos, de um ponto de acesso a numerário. O diagnóstico surge no âmbito de uma análise nacional que evidencia profundas diferenças territoriais no acesso a serviços básicos de pagamento.
Do total de freguesias portuguesas, 1.241 não têm qualquer ponto de acesso a numerário, correspondendo a cerca de 40% das freguesias do país. Apesar deste número elevado, o estudo chama a atenção para outra leitura dos dados: a proximidade física dos pontos de acesso para a maior parte da população. Segundo o relatório, 95% da população portuguesa encontra-se a menos de 5 km por via rodoviária de um ponto de acesso a numerário, uma métrica que suaviza a perceção do problema quando avaliada por distância percorrível.
“Quase integral”, refere o Banco de Portugal ao caracterizar a cobertura nacional em termos de acesso ao numerário.
Desigualdades entre distritos
O estudo evidencia contrastes regionais importantes. Enquanto Setúbal tem cobertura total nas suas freguesias, outras áreas apresentam níveis de deserto de numerário preocupantes. Na extremidade oposta, o distrito de Bragança regista 88% das freguesias sem qualquer ponto de acesso. Seguem-se Guarda e Vila Real com 76% cada, e Viana do Castelo com 65%. No outro extremo, Leiria e Lisboa figuram com apenas 4% das freguesias sem acesso, e Beja com 8%.
O relatório sublinha ainda que, quando a análise se faz pela população afetada, o número de freguesias sem pontos de acesso traduz-se em mais de 708 mil pessoas — cerca de 7% da população residente — percentagem bem inferior aos 40% das freguesias desprovidas. Isto demonstra que as freguesias sem pontos tendem a ser menos povoadas.
- Setúbal: 0% das freguesias sem acesso
- Leiria e Lisboa: 4% sem acesso
- Beja: 8% sem acesso
- Bragança: 88% sem acesso
- Guarda e Vila Real: 76% sem acesso
- Viana do Castelo: 65% sem acesso
- Viseu: 60% sem acesso
| Indicador | Valor referido |
|---|---|
| Freguesias sem ponto de acesso | 1.241 (≈ 40%) |
| População afetada | 708.000 (≈ 7%) |
| População a ≤5 km de ponto de acesso | 95% |
O Banco de Portugal chama a atenção para uma nuance importante: a ausência de um ponto de acesso numa freguesia não significa automaticamente cobertura insuficiente, já que pontos em freguesias vizinhas podem garantir acesso adequado aos residentes. Este argumento torna-se, contudo, mais frágil quando as distâncias entre localidades aumentam ou quando a população afetada inclui grupos com mobilidade reduzida.
Para os habitantes do distrito de Setúbal, a distinção positiva reconhecida pelo banco central reforça a importância de manter e reforçar a rede de serviços físicos, sobretudo num contexto de transição para pagamentos digitais. Para as autarquias e estruturas locais, os resultados apontam para a necessidade de vigilância contínua sobre a manutenção destes pontos e possíveis soluções complementares para garantir inclusão financeira, especialmente em áreas mais isoladas do país.
O estudo do Banco de Portugal usa dados até ao final de 2025 e não se baseia nas cifras mais recentes do Instituto Nacional de Estatística quanto à população total, recorda o relatório. A leitura conjunta destas fontes continuará a ser necessária para desenhar políticas locais e nacionais que assegurem o acesso universal a numerário quando este for necessário para cidadãos e empresas.