Em declarações proferidas à margem do Fórum do Banco Central Europeu, em Sintra, Marcel Fratzscher, presidente do German Institute for Economic Research (DIW Berlin), advertiu que a Europa continua vulnerável a choques externos e sublinhou a necessidade de uma resposta coordenada para reforçar a posição económica do continente.
Fratzscher prevê que o pico da inflação só será atingido no início do próximo ano e manifestou preocupação com o aumento dos preços dos alimentos. Para o responsável do DIW, a principal prioridade europeia deve ser o investimento nas pessoas, na inovação e numa política energética comum, numa altura em que muitos governos continuam a priorizar interesses nacionais.
"excessiva" dependência da China e dos EUA
O economista frisou que a dependência de fontes externas — nomeadamente da China e dos Estados Unidos — limita a autonomia estratégica da Europa. Numa entrevista ao ECO, Fratzscher apelou ainda à defesa do comércio mundial e do multilateralismo, criticando decisões que, na sua opinião, já causaram danos ao sistema comercial global.
Riscos imediatos e recomendações
Segundo Fratzscher, a resiliência europeia ao choque provocado pela guerra no Médio Oriente foi maior do que era temido, em parte graças a níveis adequados de reservas e a respostas responsáveis dos decisores políticos. Ainda assim, alertou para fragilidades estruturais: a dependência de combustíveis fósseis e um ritmo insuficiente de transição energética. No seu diagnóstico, a economia europeia precisa de reformas para recuperar plenamente — reformas para as quais nem governos nem empresas estariam atualmente preparados.
- Investimento humano: prioridade em formação e capital humano para aumentar a produtividade.
- Inovação e digitalização: reforço da capacidade tecnológica face a concorrentes globais.
- Política energética comum: reduzir vulnerabilidades decorrentes da dependência de combustíveis fósseis.
O responsável do DIW afirmou que, apesar de a inflação não ter acelerado tanto como em 2022, a situação permanece séria e exige políticas concertadas. A sua análise aponta para a necessidade de políticas que aumentem a capacidade produtiva e reduzam vulnerabilidades externas, mantendo ao mesmo tempo a proteção social das populações mais afetadas pela subida de preços.
Implicações para Portugal
Para a economia nacional, as observações de Fratzscher têm múltiplas implicações. Uma Europa mais autónoma e tecnologicamente resistente beneficiaria um país como Portugal, especialmente se isso se traduzir em maior cooperação energética e em programas de apoio à inovação que alcancem as empresas e regiões menos desenvolvidas. A chamada a reforçar o investimento nas pessoas também se traduz diretamente em recomendações sobre formação, educação e políticas activas de mercado de trabalho.
| Risco/Desafio | Consequência |
|---|---|
| Dependência externa | Vulnerabilidade a choques e políticas comerciais externas |
| Transição energética lenta | Maior exposição a volatilidade de preços e restrições de oferta |
| Baixo investimento em capital humano | Menor capacidade de adaptação e inovação |
Fratzscher apelou ainda à defesa do comércio mundial e ao multilateralismo, numa crítica implícita a medidas proteccionistas que possam agravar tensões. A mensagem central passa por uma Europa que deve assumir mais responsabilidade colectiva: investir em tecnologia, pessoas e numa estratégia energética comum para mitigar choques e reforçar a sua posição face a potências externas.
À semelhança de outras vozes académicas e de think-tanks económicos, a intervenção em Sintra reforça o debate sobre o equilíbrio entre políticas nacionais e estratégias europeias coordenadas — um tema que continuará a marcar as discussões entre responsáveis políticos e agentes económicos em Portugal e na União Europeia.