Mario Ghio, presidente do Instituto Alfa e Beto e fundador da Verbum Educação, traçou um diagnóstico sobre os principais obstáculos enfrentados por empresários da educação, numa análise que junta Portugal e Brasil. Para Ghio, os problemas comuns a qualquer sector — burocracia, tributação e custos financeiros — cruzam-se com uma dificuldade específica do campo educativo: a percepção pública e o controlo social sobre quem presta serviços pagos na área.
O responsável, identificado também como rosto da metodologia canadiana Maple Bear, defende que a sociedade tende a aceitar pagamentos em áreas como a saúde privada, mas reclama uma cobrança diferente quando se trata de educação privada. No seu entendimento, essa resistência reflecte um entendimento de que a educação, por ser um direito, deve ser exclusivamente um domínio público — posição que, para Ghio, cria tensão para quem investe e opera em redes privadas.
O percurso da escolarização no Brasil e o novo desafio
Ghio recorda factos recentes do sistema educativo brasileiro: a educação foi consagrada como direito a partir da Constituição de 1988 e a universalização do ensino público só se verificou em 1998. Esse esforço, diz ele, permitiu que desde 1988 tenham passado pelas escolas do Brasil um contingente de alunos equivalente às populações de França, Alemanha, Espanha e Portugal juntas — argumento usado para contextualizar a passagem de uma luta pela quantidade para uma luta pela qualidade.
“A nossa luta agora só é pela qualidade porque já vencemos a luta pela quantidade.”
Apesar dessa expansão, Ghio assinala a perceção negativa sobre a qualidade: uma sondagem recente indica que 47% dos brasileiros consideram a educação do país má. Para ele, o grande desafio do presente é, portanto, tornar a escola pública não apenas ampla, mas boa.
Custos, controlo social e o ambiente político
Entre as dificuldades práticas, Ghio destaca juros elevados que prejudicam o plano financeiro de projectos educativos privados. Acrescenta ainda um factor menos económico e mais sociopolítico: o «controlo social dos media, da opinião pública e, por vezes, do poder judicial», que impõe um escrutínio particular sobre actores privados na educação.
Quanto ao contexto político, em vésperas de eleições presidenciais no Brasil, Ghio caracteriza a esquerda brasileira como populista, mas afirma que o governo de extrema-direita liderado por Jair Bolsonaro foi “tão ou mais irresponsável”. Esta tomada de posição insere-se no quadro mais amplo em que decisões políticas e retórica partidária condicionam o debate e a gestão pública da educação.
Tendências demográficas e impacto futuro
Na componente demográfica, Ghio alerta para uma queda acentuada nas classes D e E: projecções apontam para uma população escolar que será 8 milhões inferior em 2030 face a 2020, o que terá consequências para a procura de serviços educativos e para o planeamento das redes de ensino, públicas e privadas.
- Burocracia e fiscalidade continuam a condicionar investimentos no sector.
- Percepção pública e debates mediáticos afetam a aceitação da oferta privada.
- Transição da quantidade para a qualidade é o desafio central no Brasil, segundo Ghio.
A reflexão de Ghio é útil para pais e encarregados de educação que procuram compreender como factores económicos, demográficos e políticos moldam a oferta educativa. Para escolas e investidores, as observações sublinham a necessidade de estratégias que conciliem sustentabilidade financeira com respostas que aumentem confiança pública na qualidade do ensino.
| Ano | Marcos |
|---|---|
| 1988 | Educação consagrada como direito na Constituição brasileira |
| 1998 | Universalização do ensino público alcançada no Brasil |
| 2020 → 2030 | Projecção de redução de 8 milhões na população escolar nas classes D e E |